QUINTANA: CHORINHO PARA UM POETA ANDARILHO!
(Nosso poeta está para PORTO ALEGRE como Kafka para PRAGA!)

“Andei pelas ruas, sem peso, sem ossos e sem corpo, pensando no que superei à tarde enquanto escrevia” F. Kafka, Diário: “Franz Kafka & Praga” H. Salfellner, Ed. “TINTA NEGRA”, Rio de Janeiro, 2011
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O poeta é um andarilho! Quem sabe seriam todos aparentados aos ciganos? Sua melhor imagem é a do Vagabundo de C. Chaplin; sempre seguindo adiante, depois de sacudir e se livrar da mesquinhez das posses! Aliás, Chaplin era neto de cigana! E o que fizeram os invejosos pequeno-burgueses, aprisionados aos “bens e posses”? Vagabundo se tornou xingamento; condenaram o “flanar” (do francês “flaneur”, também um caminhante) como estar vagabundeando de maneira “inútil”… E assim, o mundo chegou onde se encontra, à espera da salvação que certamente virá pelas mãos e pela pena de um…poeta, ou por seu espírito! E o Rio de Janeiro!? Quem terá captado os ares de suas ruas e praças como o nosso Lima Barreto, outro “flaneur” reconhecido? Toda a cidade pulsava no seu corpo e alma! Mas penso que essa sintonia com uma cidade—só alcançada nas ruas e calçadas—entre M. Quintana e Porto Alegre é insuperável!
Muito especial, no SONETO aqui apresentado, é estar a libertação como que se dando naquele momento…ou um pouquinho antes! Sua alma/mente finalmente pairou para além do corpo e da matéria; do seu peso, do espaço e até do tempo. Até de uma “pseudo demência” ele diz sofrer ao suspender toda a sua história! Mas tudo isso passava pela superação das “penas” a que todos somos (mais ou menos) submetidos desde a infância. Afinal, as penas, quando o vento veio: “…penas que eram esvoaçaram no ar”. PENAS! Quantos sentidos tem essa palavra em português! Estou convencido de que o humor liberta! Há que encontrar a dimensão lúdica da vida! Quem o fez como Quintana, com seu humor e ironia inconfundíveis e incomparáveis?!
E o academicismo, essa praga aprisionadora de mentes detentoras de algum talento! Havia também que dele se livrar, especialmente quando de matiz eclesiástico. “DOUTRINAÇÃO”!! Imagino como o menino Mário lutou contra elas e o quanto “infernizaram” seus projetos de poeta iniciante! “Que os doutores sutis se escandalizem…”!E a conclusão! No seu último terceto uma das mais belas imagens que a poesia já produziu: andorinhas em um poste, como que apontando (com uma de suas asas compridas) para o poeta (talvez inspiradas em Dostoiévski): “Olha! É o idiota dessa aldeia, dizem.”
Este soneto tem importância especial para mim. Foi o primeiro para o qual criei uma melodia. Nele bati os olhos em uma ANTOLOGIA e veio a inspiração…Ficou esperando por décadas, até que eu encontrasse toda “A Rua dos Cataventos” (na bela edição de OBRAS COMPLETAS pela NOVA AGUILLAR). Posso até imaginar quantos “doutores sutis” haverão de se escandalizar e contestar minha capacidade para musicar Quintana. Que se escandalizem!
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SONETO XXX (de RUA DOS CATAVENTOS)
Rechinam meus sapatos rua em fora.
Tão leve estou que já nem sombra tenho
E há tantos anos de tão longe venho
Que nem me lembro de mais nada agora!
Tinha um surrão todo de penas cheio…
Um peso enorme para carregar!
Porém as penas, quando o vento veio,
Penas que eram… esvoaçaram no ar…
Todo de Deus me iluminei então.
Que os Doutores Sutis se escandalizem:
“Como é possível sem doutrinação?!”
Mas entendem-me o Céu e as criancinhas.
E ao ver-me assim, num poste as andorinhas:
“Olha! É o Idiota desta Aldeia!” dizem…