QUINTANA: UM SAMBA COM ALMA COLETIVA… POR ISSO IMORTAL!
(Porto Alegre e seus “…Mais belos crepúsculos do mundo!”)

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“…É preciso acabar com aquele outro e mais funesto atomismo*: o atomismo da alma…Está aberto o caminho para novas versões…a alma como estrutura social dos impulsos e afetos (Af. 12)”; “…nosso corpo é uma estrutura social de muitas almas (af. 19).” (Nietzsche, “Além do Bem de do Mal”).
“…Fiquei sozinho, mas não creio não/Estejam nossas almas separadas…” (Quintana dando uma nova dimensão à afirmação de Nietzsche)
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Michel de Montaigne (1533-92), grande apreciador de poesia, elogiava a capacidade dos poetas para resolver problemas filosóficos com um número mínimo de palavras. Bem…poucas vezes essa verdade foi reafirmada de maneira tão clara e objetiva quanto no SONETO XXI de “A Rua dos Cataventos”. A existência ou não de uma alma humana; sua permanência na Terra, após a morte; sua reencarnação e/ou transmigração (metempsicose) para outros corpos ou até animais; sua ida para uma “Cidade de Deus”, são temas que acompanham os seres humanos desde que começamos a pensar de forma mais abstrata. A crença nessa permanência, aliás, estaria na origem da própria CULTURA, e foi muito explorada pelos xamãs em seus transes de contato com antepassados.
A existência de uma alma implicaria continuidade, imprescindível para o avanço dos muitos grupos humanos até a civilização dos assentamentos permanentes a partir do desenvolvimento da agricultura! É também tema cardinal de toda a METAFÍSICA: a certeza de que sempre haverá algo para além da capacidade de apreensão pela RAZÃO. Nietzsche (também um poeta) já resolvera a questão teórica ao criar o conceito de “alma coletiva”. Essa ideia, porém, nunca ressoara de forma tão bela e intensa, ouso dizer, quanto no SONETO de Quintana. Mas nosso poeta foi muito além ao introduzir, na sua contemplação empática, um dos momentos mágicos da Natureza e do Cosmo: o CREPÚSCULO. Eu, que sou um apreciador dos crepúsculos, já contemplei um deles em Porto Alegre, com suas nuvens avermelhadas, antes mesmo de conhecer o poema. Por mais que ele me tenha atingido, hoje atingiria ainda mais. Que poder têm as palavras; seu ritmo, sonoridade…figuras…sua MÚSICA!
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SONETO XXI para os amigos mortos
Gadêa… Pelichek… Sebastião…
Lobo Alvim… Ah, meus velhos camaradas!
Aonde foram vocês? Onde é que estão
Aquelas nossas ideais noitadas?
Fiquei sozinho… Mas não creio, não,
Estejam nossas almas separadas!
Às vezes sinto aqui, nestas calçadas,
O passo amigo de vocês… E então
Não me constranjo de sentir-me alegre,
De amar a vida assim, por mais que ela nos minta…
E no meu romantismo vagabundo
Eu sei que nestes céus de Porto Alegre
É para nós que inda São Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo!…
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TANTOS AMIGOS MORTOS…AOS 34 ANOS!
Homenagear amigos mortos em canções é prática comum no samba, no frevo (ver a “Marcha Regresso”), no carnaval (“Oi Zumzumzumzumzum…Tá faltando um”). Um poema com esse tema central pede ritmos e expressões artísticas que envolvem multidões. Há algo ali, porém, que pediria até um levantamento para entender as razões para desfechos tão dramáticos e possivelmente trágicos de tantas vidas. Quando publicou seu primeiro livro (1940), Quintana tinha 34 anos, ou seja: foram criados antes disso. Seus amigos das “ideais noitadas” deviam, ao que tudo indica, parear com a idade do poeta. Como, em tempos de paz (no Brasil, pelo menos), tantos morreram tão cedo? Sebastião é homenageado em outro poema sobre o “Livro Santo”: o “Só” de Antônio Nobre, poeta tísico que tanto influenciou também M. Bandeira (outro tísico “profissional”). Os dois amigos (Mário Quintana e Sebastião) como que “viviam” no que ficou conhecido como “Torre de Anto“, mas Sebastião deixou “a leitura interrompida”. Talvez também pela tuberculose. Mas…como morreram os outros 3? Poucas vezes, um poema tratando da morte afirmou a vida tanto! Um dia pensei: Quintana é o “não tísico mais tísico” de toda a poesia.
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*A derrubada da crença no átomo “bolinha dura”—isolado do restante da natureza e defendido por Demócrito, I. Newton e outros—é atribuída por Nietzsche ao físico polonês Boscovich. Fora já promovida por GW LEIBNIZ ( o mais injustiçado dos filósofos) quase 200 anos antes: “…não admito na matéria porções perfeitamente sólidas…sem movimento particular de suas partes como são concebidos os pretensos átomos…Segundo minhas demonstrações, cada porção de matéria é subdividida em partes móveis…” (“Correspondência com Clarke”, discípulo de Newton). A ignorância do mundo sobre a obra desse pensador é um espanto e foi promovida pela dupla KANT e VOLTAIRE.