QUINTANA: POESIA EM ESTADO HIPNOIDE!

(Hemisfério Esquerdo relatando ao Direito o que fizeram durante o transe)

Márcio Amaral (Gravação: APÊ ESTÚDIO, com Luiz Henrique)

…à espera da primeira estrelinha.

NOTA: o “Mal Sagrado” do poema implica um transe: dissociação da consciência, ainda que parcial, só que de natureza muito especial em relação às que costumamos ver. Nos casos mais comuns, o HE (mais racional) é como que eclipsado pelo HD (intuitivo e emocional), restando àquele registrar o ocorrido. A evocação do que se teria passado, porém, não costuma ser espontânea nem imediata, podendo ocorrer através de hipnose ou por associações. Todo esse processo seria disparado por situações psicológicas sentidas como insuportáveis. Trata-se do “mecanismo” que propus (https://www.ipub.ufrj.br/wp-content/uploads/2017/11/Livro_27_06_2023_compressed.pdf) para explicar como chegamos àquelas dissociações: plenas (fugas dissociativas e personalidade múltipla) ou parciais (despersonalização e amnésia psicogênica). O que há de muito especial no poema é o relato, quase confidencial, que o HE parece fazer à sua parelha, o HD (ou ao poeta) do que este teria feito ao “tomar o controle”…como se fosse necessário, pois o HD não apenas sabe de tudo muito bem, como protagonizou os acontecimentos! Pobre razão…sempre com a ilusão de controle. O efeito poético resultante é único e impressiona. Tudo parece se dar como se as barreiras entre razão/intuição não existissem em Quintana. Há ali uma TRANSPARÊNCIA cultivada dolorosamente, como se pode ver no SONETO XVII: “…E hoje dos meus cadáveres eu sou/O mais desnudo, o que não tem mais nada…”; mas que também pode vir com o típico humor: “…despe-te, quanto mais nu, mais tu..” (“A Alma e o Baú”). Tudo isso no sentido da libertação dos artifícios que costumam nos consumir.

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SONETO XXXII de “Rua dos Cataventos” (a Pedro Wayne) 
Nem sabes como foi naquele dia… 
Uma reunião em suma tão vulgar! 
Tu caíste em estado de poesia 
Quando o Sr. Prefeito ia falar… 

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O mal sagrado! Que remédio havia?! 
E como para nunca mais voltar, 
Lá te foste na tarde de elegia, 
Por essas ruas a perambular. 

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Paraste enfim junto a um salgueiro doente, 
Um salgueiro que espiava sobre o rio 
A primeira estrelinha… E, longamente, 

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Também ficaste à espera (quanta ânsia!)… 
Mas a estrelinha, como um sonho, abriu, 
Longe, no céu azul da tua infância!

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Um SAMBA…quem diria?! Sua inspiração inicial!? Duas palavras: PREFEITO e SALGUEIRO! Posso até imaginar o poeta (que detestava formalidades), quase capturado por um poder que o tenta seduzir! Eis que o humor e a fatalidade arrebentam as amarras, assim como DIONÍSIO quebrava as correntes com que os muito racionais tentavam aprisioná-lo (ver “As Bacantes” Eurípedes). O deus acaba por humilhar e provocar a morte de Penteu, mas com Quintana é muito diferente…! Sequer quer punir alguém. Desculpa-se até mesmo com aqueles de quem acaba de se libertar: “O Mal Sagrado! Que remédio havia!?” (como a dizer: “desculpem, foi inevitável; eu até gostaria de ficar um pouquinho mais, mas…”). Por que um“Mal”? Por retirar o domínio da razão, quase sempre utilitária, tida por séculos como a marca da SAÚDE (com seu matiz higienista) usada para torturar e eliminar inúmeras pessoas, especialmente mulheres e os “desviantes”.“Sagrado“, pois muito para além do poder dos homens; uma espécie de “Cálice” do qual não é mais possível se afastar. Mas…e o SALGUEIRO!? Talvez a mais poética das árvores; também chamada “Chorão”, pois está quase sempre debruçada sobre águas, com seus galhos voltados para baixo! O que dizer ainda do salgueiro doente tentando ver uma estrelinha no reflexo do rio, pois não consegue se levantar para olhá-la diretamente!? É poesia demais, transbordante mesmo. De novo, as coisas se resolvem na aparente fragilidade que o poeta sempre cultivou: “…no céu azul da tua infância”! Fica a pergunta sobre a origem do nome da região carioca e da nossa grande Escola de Samba.

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O TRANSE…A POESIA E A CULTURA!

“…de onde pode ter vindo a poesia, essa forma de rimar o discurso que, longe de torná-lo mais inteligível, diminui sua clareza…?…A poesia foi o laço mágico passado ao pescoço dos deuses.” (Nietzsche: “A Gaia Ciência” Af-84)

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Desde os Xamãs e Oráculos, ritmo e vocalização (também rítmica) ditariam a comunicação com deuses, através de um estado especial de consciência (transe). Nem a luta dos Cantos Gregorianos contra o ritmo—toldando a sensualidade das danças—conseguiu eliminá-lo. Significativamente, aquele estado especial de consciência (em níveis variados) é associado à criação artística em geral. Parece haver nisso uma luta permanente contra os excessos da razão tendente à esterilização. Afinal, como escreveu Lord Byron:  “The tree of knowledge is not the tree of life” (“A árvore do conhecimento não é a mesma árvore da vida”). Trata-se de problema aparentemente insolúvel…racionalmente, pelo menos. Afinal, os poetas costumam ter um conhecimento bem amplo das coisas da vida! A própria FILOSOFIA, em suas expressões iniciais, era diretamente associada à poesia. A solução deve ser procurada na humildade perante a ignorância e o abandono da intenção de controle sobre o mundo. Tem-se falado em “Inteligência Artificial” (AI), mas ela implica confissão de falta de imaginação e criatividade. Melhor chamar seus apologistas de “TOUPEIRAS POMPOSAS”. G. Gil, com sua canção “O Cérebro Eletrônico” já sentenciara a limitação da tal AI. Por fim, a sentença de M. Bandeira (referindo-se aos poetas muito racionais): “Não faço versos quando quero, mas quando ela, a poesia, quer!” é lapidar nesse sentido. Mas há uma altura que penso ter sido atingida apenas por Quintana. 

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*”A Rua dos Cataventos” é constituído por 35 SONETOS (tendo sido 2 deles substituídos, mas preservados por edições posteriores). Esbocei canções para mais de 15 deles. Os ritmos brasileiros serão de mais fácil acompanhamento instrumental: 2 Sambas; 2 Chorinhos; 2 Marchas Rancho; 1 Ciranda; 1 Seresta. Há também 1 bolero; 1 quase Tango; 1 Valsa e até 1 Marcha Fúnebre e outros de difícil classificação. Não há aqui qualquer interesse ou prática “comercial” (com ou sem aspas), apenas a necessidade e expor aquilo que tenho feito tentando respeitar os POEMAS e a minha inspiração.

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