“COMPLEXO DE ATLAS”: OS JOVENS E A RESPONSABILIDADE SOBRE O MUNDO!

(Sinal cardinal: curvatura marcante da coluna, sem correlações fisiopatológicas que a justifiquem)

Die ganze Welt der Schmerzen, muss ich tragen” (“Der Atlas”, H. Heine): “Todo um mundo de tristezas preciso carregar”

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INTRODUÇÃO

Trata-se de conceito já formulado. Leituras e reflexões, porém, deixaram-me a impressão de haver muito a ser aprofundado na sua compreensão. É tema de interesse antigo (pessoal mesmo), ativado por duas situações recentes com relatos detalhados (um deles constatado visualmente). Ortopedistas, fisioterapeutas e outros profissionais que lidam com postura, certamente terão uma casuística considerável. A eles dirijo essas reflexões.

Aplicar o conceito sem a típica expressão corporal (curvatura acentuada na porção superior da coluna) considero uma banalização que promove especulações vazias. Além disso, falar de “necessidade de controle”, por ex., amesquinha a tendência a assumir RESPONSABILIDADES em relação às situações à sua volta (NÃO relacionados ao seu próprio interesse) que precisa ser valorizada, desde que seu excesso não se volte contra o próprio. O terceiro critério seria: início na adolescência, quando o peso da afirmação futura na vida começa a se fazer sentir. Já aos excessivamente empertigados, digo com M. de Montaigne (“Ensaios”- Séc XVI): são como espigas de trigo vazias, pois as mais plenas sempre se curvam um pouco. Um dia, de maneira até lúdica, dei-me conta de que quem vive no PRESENTE são somente as crianças; que o maior desafio da adolescência é começar a “viver no FUTURO”, processo que, quando bem sucedido, se estende por toda a idade adulta. Muitos nunca conseguirão vencer essa barreira e ficarão à deriva (adolescentes/crianças eternos), especialmente em uma sociedade dividida entre “vencedores e derrotados”. Por fim, na velhice, há uma tendência a “viver no PASSADO”.

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ALGUNS PRINCÍPIOS ESSENCIAIS PARA INICIAR A DISCUSSÃO

Antes de tudo, aqui não se deve falar em sinais e sintomas, mas de perfil de personalidade. Trata-se de uma das condições mais expressivas (quando reforçada por múltiplas observações) da capacidade da mente para expressar seus conflitos através do corpo. Aplico aqui alguns PRINCÍPIOS inspirados em Spinoza (“TRATADO POLÍTICO”), aprofundados por Leibniz (“NOVOS ENSAIOS”) e aplicados por Freud (“Determinismo Psíquico”): 

1- Nada na natureza é aleatório: determinantes e correlações de um fenômeno qualquer podem ser identificados e reproduzidos;

2- Tudo o que se passa em nossa mente (especialmente quando inconsciente) se expressa em nosso corpo;

3- No corpo, e em sua expressão, a nossa VERDADE mais profunda! Não preciso reportar a supremacia da linguagem corporal sobre a verbal: “A fala é apenas a última das linguagens e a mais facilmente falseável” Nietzsche (“A Gaia Ciência”). 

Sei de quanta mistificação se fez e faz em torno de tentativas de avançar o conhecimento por meios “não controlados” e do risco de se descambar para esoterismos e “compreensões holísticas”; daquelas que se satisfazem com abordagens “generalizantes”. Por isso o estabelecimento de PRINCÍPIOS. Aqueles que desprezarem os esforços que se seguem—tornando vazia a palavra “ciência”—estão obrigados a começar por tentar abalar os PRINCÍPIOS enunciados. Caso contrário, comunicarão: “minha ‘ciência’ se reduz àquilo que ‘salta aos olhos’ (E…Vidência). Sou um mero aplicador de conhecimentos já estabelecidos“. Se os PRINCÍPIOS são verdadeiros, é hora chamar a coragem para caminhar em terreno pouco firme e de aprofundar conhecimentos mais específico a partir de sua aplicação.

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UMA BOA INTERVENÇÃO?…SÓ INICIADA PELA VALORIZAÇÃO DO TRAÇO!

Em um mundo positivista e midiático; que apresenta “modelitos” a serem “alcançados”—ainda que pela violentação de inclinações muito individuais e demarcadoras—pode soar estranha essa VALORIZAÇÃO. Qualquer processo “educativo” (físico e/ou mental), porém, que ignore o valor da manifestação aqui abordada tem 2 destinos possíveis: 1- ser ignorado pelo jovem; 2- ferir seriamente individualidades, com repercussões não desejadas. Recorramos, de novo, a Spinoza (opondo-se à régua cartesiana da razão mutiladora*): “somente um sentimento (afeto) pode ter poder (efeito) sobre outro sentimento” (“ÉTICA”)Quando a Razão não parte da humildade—aceitando o papel de coadjuvante no processo de apercepção interna (Leibniz)—bate com a cara no muro…inexoravelmente! Lembrando, entretanto, que aquele assumir responsabilidades é associado à vontade de poder—do mais legítimo, pois voltado a interesses coletivos, ainda que resultando em exageros—as coisas ganham outro interesse! Afinal, o jovem não quer (nem conseguiria) abrir mão dessa fonte do grande prazer**. O que fazer, então? Começar por valorizar o traço fundamental, assinalar suas virtudes e o quanto o mundo precisa de pessoas assim. No seguimento, tentar demonstrar que ele não precisa da expressão corporal para se afirmar; que elevar um pouco (apenas um pouco) a coluna, não implicar perder sua individualidade. Continuando…defender uma espécie de contrabalanceamento da inclinação natural. É aqui que a RAZÃO pode muito ajudar: a identificar situações que disparam as condutas e na apercepção do início dos processos internos de maneira a não se deixar levar totalmente por ele. Uma dose de humor em relação à sua própria tendência (“Lá vou eu de novo…!”) certamente ajudará. Sem isso, talvez outros versos do poema de Heine se façam ouvir: “Du wolltest glücklich sein…Und jetzo so bist du elend” (“Querias ser feliz…/E agora és miserável.” (Der Atlas, musicado por F. Schubert).

Pensar que a educação repetida e a “experiência controlada” podem modificar uma inclinação profunda faz lembrar um ditado argentino: “Experiência é pente que se dá a um careca” (pela pianista Marta Argerich).

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*Estou certo de que até DESCARTES se assustaria ao ver o que se diz e faz em seu nome. Alguns poderiam considerar que a IA vai romper a “barreira” entre a “res cogitans” e a “res extensa”. Em verdade, não há barreira alguma. Tudo se relaciona no UNIVERSO, com trocas e intimidade, como bem o demonstrou Leibniz com suas Mônadas. O “átomo bolinha dura” é reflexo de mentes endurecidas, de Newton e outros. Se alguns estão desistindo de sua condição de seres pensantes…paciência.

**Freud abandonou o frágil “Princípio do Prazer” (“Além do Princípio do Prazer”), mas não teve a coragem do último passo: reconhecer o PRINCÍPIO DO PODER (sem a tolice do poder sobre outras pessoas). Afinal, o GRANDE PRAZER (não o mero alívio, alcançado até no toilette) dele deriva, por afirmação individual e/ou coletiva, a partir de enfrentamentos.

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