M. QUINTANA: PARALELOS ENTRE UM SONETO SEU E POEMA DE GOETHE!
“Erlkönig” (musicado por F. Schubert): na temática e estrutura
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NOTA: os paralelos abaixo são tão somente para assinalar o quanto de drama e ação há nos dois poemas o que, para mim, é um convite à música. Desnecessário dizer da total originalidade dos poemas de Quintana. Já em relação às minhas tentativas musicais, tenho 2 princípios : obediência à inspiração (sem artifícios) e que o resultado esteja em sintonia com o poema. Quanto à atribuição de valor artístico, é coisa que só o tempo confere…ou não.
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Minha introdução à poesia alemã se deu através das canções (“Lider”), especialmente de F. Schubert (1798-1829). “Erlkönig”—cujo paralelo com o Soneto-XVIII (de “Rua dos Cataventos”) vou tentar demonstrar—gerou uma das mais belas canções já escritas (ouvir no LINK). Fiquemos apenas na temática e estrutura dos 2 poemas. O primeiro paralelo encontra-se na criação de CENAS propriamente ditas (com falas entregues a personagens): por Goethe em mais de 30 versos; por Quintana em 14. Outro paralelo é encontrado no medo da noite, seus sortilégios e ameaças, com o movimento assustador dos ventos (“durch Nacht und Wind”: através da noite e do vento). A SEDUÇÃO, com apelos à sensualidade visando arrastar um jovem, é outro elemento comum. Lembrar que, ao tempo de Goethe, a natureza era tratada como inimiga a ser derrotada (assim como a sensualidade, a ser cortada como as árvores).
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“ERLKÖNIG” (rei das trevas e das florestas) de JW GOETHE/F. SCHUBERT
Cruzando a noite, montado a cavalo e com seu filho à frente, um pai sente alguns abalos no jovem e pergunta:
Pai-—“Por que tanta aflição, meu filho?”
Filho—“Não estás vendo, meu pai, o Rei dos Elfos, com coroa e cauda?”
Pai—“É só uma nuvem ao largo!”.
ErlKönig (dando início à sedução) —“Bom menino, venha comigo, lindos jogos farei contigo…”
Filho—“Não ouves, meu pai, o que ele sussurra ao meu ouvido?”…
Pai—“É apenas o vento nas folhas secas, meu filho“.
ErlKönig—“Minhas filhas vão te embalar…cantar…dançar…” (A sedução atinge o clímax)
Filho—“Meu pai…não vês…nas trevas, ali…Erlkönig com suas filhas?”
Pai—“Sei bem o que vejo, meu filho, são apenas velhos salgueiros a balançar ao vento”
ErlKönig (com brutalidade): “…Tuas belas formas me encantam! Se não vens por bem, usarei da força”
E arrebata a alma do jovem que morre.
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VENTOS ANDARILHOS BATENDO À JANELA DE QUINTANA!
(Soneto de “A Rua dos Cataventos”-XVIII)
Esses inquietos ventos andarilhos
Passam e dizem: “Vamos caminhar.
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom cismar…
…..
E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste, sob a paz lunar,
Beijar os seus entrefechados cílios
E as dolorosas bocas a ofegar…”
……
Os ventos vêm e batem-me à janela:
“A tua vida, que fizeste dela?”
E chega a morte: “Anda! Vem dormir…
…..
Faz tanto frio… E é tão macia a cama…”
Mas toda a longa noite inda hei de ouvir
A inquieta voz dos ventos que me chama!…
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VERSOS E ESTRUTURA PREPARADOS PARA UMA CANÇÃO!
1- Introdução: piano; notas graves em tensão um tanto contida.
2- O próprio poeta narra (2 primeiros versos) e reporta as falas do Vento. Em Erlkönig há narrador.
3- Os Ventos convidam a passear, com um misto de autoridade e sedução (últimos versos da quadra).
4- Solo do piano entre os quartetos anunciando a SEDUÇÃO que virá (arpejos?).
4- A SEDUÇÃO dos Ventos atinge extremos de EROTIZAÇÃO (em Erlkönig é mais sutil).
5- O jovem reluta; os Ventos perdem a paciência, batem à janela e gritam. A tensão apenas sugerida, no início pelas notas graves do piano, atinge o auge em fortíssimo.
6- Longa pausa!
7- Canção de ninar (introduzida pelo piano) à maneira da associação entre a MORTE e os cuidados maternos como em “Wiegenlied” (Schubert):“Dorme, dorme, nessa doce sepultura/Guardado pelo braço amoroso de tua mãe…”.
8- O poeta cede e se deita para dormir, mas não haverá de se esquecer dos Ventos que voltarão a bater em sua janela: andante em acordes graves, quase uma marcha inevitável…um destino, mas não podendo resvalar para o fúnebre propriamente. Afinal, todo ritual de passagem implica luto por algo deixado para trás: a “Terra do Nunca…mais!”
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