NOVOS ACHADOS EM PSICOPATOLOGIA E SUA SEMIOLOGIA!

(ARCO DA VONTADE: o poder que uma imagem pode ter; “Alucinações Funcionais” e outros)

1- O ARCO DA VONTADE

Esquematizava eu a aula sobre o tema no quadro negro (Gragoatá, há cerca de 15 anos) quando, em súbita inspiração—apoiado na certeza de que o processo volitivo implica refreamento na execução dos desejos—imaginei um arco que sugerisse um sutil retardamento no processo, a partir de uma linha do tempo imaginária. Seus 4 momentos: desejo inicialajuizamento (moral e utilitário), tomada de decisão e execução, prestavam-se muito bem para assinalar 4 pontos no próprio arco. Na exposição aos discentes, senti o efeito causado, mas só me dei conta da sua importância quando, em outra aula, incluí uma linha pontilhada na base do arco e escrevi sob dela IMPULSIVIDADE: passagem da primeira à última fase sem ajuizamento e avaliação de consequências. Eis que, já há alguns anos, a citação do ARCO DA VONTADE (especialmente por residentes e especializandos médicos) vem se tornando frequente sem que as pessoas identifiquem a origem. Até colegas muito próximos, diante dessa história aqui contada, foram à procura de referência anterior por algum autor ou em alguma aula que teriam tido há muito tempo. Ninguém a encontrou, antes do meu livro, é claro. Desculpem a imodéstia, mas essa impressão de que novos conceitos (imagens, ideias…) são conhecidos há muito tempo—chegando-nos já com poder de convencimento—implica algo que se tornará CLÁSSICO. Devo-o também aos meus discentes, especialmente os da PSICOLOFIA-UFF, no GRAGOATÁ. 

NOTA: Fiz agora um novo acréscimo que julgo enfeixar o desejado sobre o tema. Quando levei ao papel a ideia de um ARCO DA VONTADE (ou VOLITIVO, como alguns o têm chamado), não considerei a possibilidade de o processo ser (durante o ajuizamento ou processo de deliberação) abortado,reformulado e/ou ajustado. Sem isso, tudo se resumiria a um inútil retardamento.

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2- ALUCINAÇÃO FUNCIONAL!? PARA QUEM?

Se há um bom princípio na nossa área é: toda denominação precisa carregar consigo uma relação íntima com aquilo que tenta definir. Se o meu livro tem alguma vantagem sobre outros é em função de ter sido escrito e reescrito a partir da crítica de centenas de DISCENTES, especialmente por serem da Psicologia e estarem menos dispostos à aceitação sem crítica de termos da Psiquiatria, pedindo explicações quanto à sua origem. Muitas delas trazem um vício de origem em função de traduções de termos de outras línguas. Há uma tendência que precisa ser superada: depois de estranhamentos iniciais, passamos muito rapidamente a repetir o que tínhamos estranhado. Somente isso pode explicar a repetição dessa denominação por tanto tempo. Pois se a palavra FUNCIONAL é sempre associada a algo útil e interessante, como pode um sintoma qualquer ser FUNCIONAL, especialmente uma alucinação? Além disso, se o critério para a classificação de alguma variação individual como PSICOPATOLOGIA implica um prejuízo associado, como aplicar a palavra FUNCIONAL por aqui? Quem conhece o fenômeno sabe que ele se dá EM FUNÇÃO de um ruído, em geral contínuo, provindo do mundo inanimado e material (motores, correntes de água e outros). Alguns incluem aqui sons de animais, com o que absolutamente NÃO concordo. Os animais têm linguagens de comunicação (inclusive conosco) e se nunca houve “o tempo em que os animais falavam”, certamente houve “o tempo em que nossos ancestrais ‘falavam e entendiam’ bem a sua língua (sons, gestos, postura e outras). A escuta ou “interpretações anômalas” de seus sons não deve ser assim denominada.

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3- APERCEPÇÃO DELIRANTE…ACEITEM COLEGAS, POR FAVOR!

Costumamos começar nossas aulas sobre a SENSO-PERCEPÇÃO pelos seus 3 momentos: 1- SENSAÇÃO, implicando reações físico-químicas; 2- PERCEPÇÃO, identificação de cenários, pessoas e objetos; 3- APERCEPÇÃO, compreensão da situação e sua integração na “linha do tempo”. Apesar disso, há cerca de 70 anos, depois da apresentação do conceito por K. Schneider (e apenas porque os alemães muito ligados ao kantismo não gostavam de Leibniz, aquele que firmou e descreveu o fenômeno da APERCEPÇÃO), continuamos a ficar nos explicando: “Olha! Não há qualquer problema com a PERCEPÇÃO, apesar do nome. O problema está na revelação súbita (bem mais do que uma simples interpretação), autorreferente e sem vínculo lógico com o percebido”. Ou seja: é a APERCEPÇÃO que se dá de forma DELIRANTE. Sempre que um conceito ou definição precisam de explicações é sinal de que não atendem à demanda. Quando tentei publicar a proposta de renomeação (2010) no JBP, um trio anônimo de “peer review” escreveu tantos impropérios a respeito que a secretária do jornal, depois de me falar do conteúdo, acabou por não me entregar o JULGAMENTO SUMÁRIO. Foi quando desisti de publicar em jornais de Psiquiatria. Estou esperando que algum colega conhecedor do tema se pronuncie, mas acho que só postumamente acontecerá.

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4- “PARADOXO DAS ALUCINAÇÕES”? SUBMISSÃO À LINGUA ALEMÃ!

Antes de tudo e por definição, todos os paradoxos são falsos: implicam 2 opiniões (doxas) que se excluem. É o caso, como será demonstrado. Vários autores de língua latina têm assinalado o paradoxo nos fatos assinalados abaixo:

a- a definição de alucinação implica ausência de qualquer objeto relacionado ao que foi alucinado.

b- sendo assim, não há sequer uma SENSAÇÃO a ela associada.

c- se não há sensação, muito menos pode haver uma PERCEPÇÃO.

d- LOGO, não se pode dizer que uma alucinação seja um fenômeno da senso-percepção!

O que seria, então, uma ALUCINAÇÃO?!

Há apenas 2 fontes possíveis para a formação de imagens mentais: EXTERNA (caracterizando uma senso-percepção) ou INTERNA (uma representação). Sendo assim, as alucinações são REPRESENTAÇÕES, apenas que bem diferentes das mais comuns, por serem dotadas de todas as características de uma percepção verdadeira, inclusive do poder de convencimento. Há que perguntar: de onde tiraram a conclusão da impossibilidade de os seres humanos produzirem uma representação com essas características. Aliás, é exatamente esse convencimento (tomar por verdade) que está na base do que chamei submissão à língua alemã.  

WAHRNEHMEN (PERCEPÇÃO): WAHR=VERDADE e NEHMEN=TOMAR POR!

Trata-se de um bom exemplo das deformações que o IDEALISMO alemão produziu. O critério por eles aplicado para a existência das coisas no mundo passou a ser sua tomada como verdade por alguém! A inversão é total, chegando a aprisionar até a própria língua. Quanta diferença em relação ao latino PERCIPERE: tomar posse de algo (pré-existente no mundo) de maneira a produzir dele uma representação, o que resulta em melhor adaptação! 

Por fim, o papel da imaginação—sempre presente, pois nunca somos passivos, como câmeras e gravadores—é muito diferente nos dois processos. Nas senso-percepções implica apenas a marca da individualidade, associada a um grande compartilhamento com os circundantes. Já nas representações (especialmente nas alucinações, associada a grave perturbação do JUÍZO) a imaginação é seu fator determinante.  

Há, no curso do livro outras observações originais, quase sempre desenvolvidas a partir de questionamentos, mas essas são suficientes, por ora.

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