SUICÍDIO….ENTENDER? SÓ REVENDO TODOS OS VALORES!
(Walewska: como reverter uma decisão à beira da sua execução?!)
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“Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores
Qualquer coisa de anjo que perdeu as asas” (M. Quintana)”
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Poucas vezes vimos um estado de perplexidade como o que tomou a todos os que se pronunciaram sobre o suicídio de Walewska. Depois de um longo e silencioso drama, talvez seja hora de, a partir dos fatos tornados públicos, tentar lançar alguma luz sobre o acontecimento. Quando a notícia começou a circular, não veio associada ao suicídio. Um tanto escolado nessas situações, pensei logo na possibilidade: notícia de morte de pessoa famosa, considerada cheia de saúde, de forma súbita e inesperada, sem um registro de possíveis causas (acidente, homicídio e outros) com muita frequência é devida a suicídio. Considerando o preconceito generalizado, especialmente nos meios nos quais o que mais se valoriza é a fama, a tendência é, sempre que possível, erguer “cortinas de fumaça” em torno das situações. Walewska não deixou margem para que seu drama passasse sem as reflexões que a perplexidade deve provocar. A aplicação do método aqui apresentado, visando interromper o planejamento ou a execução de um suicídio, é bastante flexível. Depende do andamento de uma entrevista; do ambiente criado, do surgimento das oportunidades naturais de fala e outros. As assim chamadas AFIRMAÇÕES, sem ordem pré-estabelecida, podem ser formuladas como perguntas: “Já pensou que v. talvez esteja pensando em se matar por idealizar demais a vida?”. Não abro mãodo termo “afirmação”, pois aquele momento pede que sejamos afirmativos, como o personagem de BALZAC (ver abaixo).Sua aplicação tem se mostrado efetiva nos vários casos que tenho examinado, mas não dispomos de instrumentos formais de controle, especialmente das evoluções, mas é assim que os processos científicos se iniciam. As quase idolatradas EVIDÊNCIAS (“o que salta aos olhos”) devem ser tratadas como um objetivo nunca um ponto de partida. Por vezes, ao contrário, é preciso até superar aparentes “evidências” (de que o sol gira em volta da Terra, p. ex.) para que o conhecimento avance. Os paradoxos* (aparentes, como todos) que surgem na investigação do suicídio são tantos que nos obrigam a outras formas de “revolução copernicana”: a de nossos valores habitualmente amesquinhados.
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REVERTENDO UMA DECISÃO EM ANDAMENTO (H. de BALZAC, “ILUSÕES PERDIDAS”-XXX)
Parando em uma estrada que cruza uma floresta, um padre iluminista se depara com um rapaz sozinho em cujo rosto percebe uma expressão que precede a morte. Conversam, e isso é já um prenúncio da mudança no curso que estava por se dar. Confirmada sua suspeita, diz:
“–Oh! Meu jovem! Foi então a Divina Providência que fez com que eu desejasse sacudir, com um pouco de exercício, o sono que acomete os viajantes… (continua ele, depois da confirmação da suspeita)
–Hum! Que fez para morrer? Quem o condenou à morte?
–Um Tribunal soberano: eu mesmo…
–Pois bem, poderá matar-se em…(cita vários lugares)...As areias movediças do Loire não devolvem sua presa…(algumas observações)
–Só um padre poderia lisonjear um pobre que vai morrer!
–Não morrerá!—disse o espanhol com autoridade”
Efetivamente, o rapaz não executa o ato planejado e abre um novo caminho em sua vida. Como repete velhas condutas, Luciano de Rubemprée acaba por se suicidar (em outro livro da “COMÉDIA HUMANA”)!
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UMA LONGA PREPARAÇÃO…MAS NINGUÉM SE DEU CONTA!
“Uma carta de despedida foi encontrada dentro de uma pasta sobre a mesa em que Walewska estava. Uma garrafa de vinho, uma taça e um celular também foram encontrados”. (matéria baseada no boletim de ocorrência)
O trabalho com Saúde Mental é cercado de desafios. O mais premente deles é tentar abalar uma decisão, longamente acalentada, por aqueles que veem (ou não) a se suicidar. Há que partir de algumas convicções: 1- o instinto de preservação da vida continua vivo ali e todos gostariam de ser demovidos da decisão; 2- há, naquela pessoa, uma profundidade que precisa ser VALORIZADA, especialmente em um mundo que privilegia a superficialidade; talvez por isso mesmo esteja ela se sentindo tão isolada; 3- há que abalar a convicção e isso só se consegue quando atingimos o núcleo do problema. Palavras e gestos habituais de acolhimento apenas introduzem um contato que precisa atingir mais profundamente a convicção, como no diálogo reproduzido acima. Nesse sentido, sistematizei 4 afirmações (agora 5, baseadas em formulações de grandes romancistas e pensadores) a serem transmitidas diretamente e sem rodeios adocicados dos quais os pacientes certamente estão já cansados. Discutir se essas afirmações são ou não “corretas” é totalmente improdutivo: “O que mais interessa em um juízo, não é se ele é verdadeiro ou não, mas se é edificante; se injeta mais vida na vida” (Nietzsche “A Verdade no Sentido Extramoral”).
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AS 5 AFIRMAÇÕES!
1- “V. ama a vida! É por um excesso de amor à vida que quer dar fim à sua. Idealizou-a tanto que não consegue suportar a mediocridade em que se sente atirado”. (Baseado em A. Schopenhauer “O Amor, as Mulheres e a Morte”)
2- “V. ergueu ideais elevados demais para a sua situação desse momento e julga ter traído esses ideais. Que os IDEAIS sejam estímulos para vida, não algo a parasitar a vida!” Baseado em L. Tolstói, carta de um suicida em “Diário de um Marcador de Bilhar”: “Horrorizei-me diante do abismo que vi entre tudo aquilo que eu queria e teria podido ser e o que sou hoje!”.
3- “V. pensa que todos os que ama estão cansados do seu drama e que sua morte vai ser um alívio para eles. Não é verdade! Todos vão sofrer muito mais com a sua morte. Algo neles morreria junto com v.! V. ainda tem muito a fazer nessa vida!” Ver carta de K. Cobain na qual faz a afirmação direta e na fala do viúvo : “Eu me anularia por ela”. Eis um falso dilema que só piora a situação. O viúvo precisa de apoio e proteção. Quem amava Walewska tem esse compromisso.
4- “Quem conseguiu superar um drama como o seu haverá de ter muito a oferecer ao mundo. Pense em quantas pessoas v. poderá ajudar. São muitos aqueles que só deram o melhor de si depois de terem superado um drama que quase os levou ao suicídio (Tolstói, Kurosawa e outros)”
5- “Para se matar, sempre haverá tempo e oportunidade! A questão é NÃO desistir de viver. Dê a v. mesm@ outra chance!” (H. de Balzac).
Por fim e a partir de um contato desse tipo, eu gostaria de afirmar, como fez o padre espanhol: “Não se matará!”! Mas é melhor ser mais reservado. Ter o sentimento e a ideia que o acompanha é já bem afirmativo e contagiante! É bom lembrar, ainda, que o medo de encarar uma decepção causada naqueles que os assistem e amam pode ser fator deflagrador do ato.
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CULTO À IMAGEM “DEVORANDO” A CRIANÇA QUE FOMOS…E PRECISAMOS SER!
“Ela estava linda, maravilhosa, feliz. Não tinha nada que pudesse levantar hipótese de depressão. Eu nunca vi a minha irmã estressada. Ela estava sempre feliz” (do irmão, sobre encontro dias antes).
“Uma filha exemplar…uma menina obediente…aprendeu além do que a gente ensinou”…(do pai).
Foi um abalo profundo nos valores que a sociedade midiática, aquela que promove e explora a fama de alguém, costuma incutir nas pessoas que têm algum talendo especial. Há que se proteger! É uma forma de captura; captura essa que, no caso, parece ter se iniciado bem antes! Ninguém veio ao mundo para ser “exemplar”: “Os elogios funcionam como uma teia de aranha que nos aprisiona lentamente” (Nietzsche, em obra não publicada). Só temos certeza no amor dos demais quando nos aceitam plenamente, especialmente aquilo que consideram nossos “defeitos”.
Somente a amiga Virna (também jogadora com grande carreira), dentre os que falaram a respeito, intuiu a profundidade do drama: “Existia uma dependência emocional muito grande (ao marido). A gente via ela se isolando das amigas. Entrou num casulo. A gente não conseguia entender e, agora, acontecendo tudo isso, vimos que ali tinha uma dor muito grande”. Mas há outra sentença da amiga que, segundo minha opinião, fornece a chave para o entendimento do enigma: “Os pais eram pessoas muito humildes. Ela pôde proporcionar uma boa moradia a eles…”. Apenas aplicando um mínimo de lógica, podemos dizer: Walewska foi, ela mesma, uma menina muito humilde e a pergunta que se impõe é: teria ela se desencontrado da menina que um dia foi? Vou sempre trabalhar com essa hipótese, na medida em que considero nosso maior desafio ter sempre presente a criança que nós fomos. É ela que realimenta a vida…sempre.
(M. Bandeira, dirigindo-se a um espelho em “Versos de Natal”):
“…Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos…
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta”.
Uma criança certamente teria ajudado no seu encontro com sua própria criança: “Ela tinha até enxoval pronto pra quando fosse engravidar. Esse enxoval existe, está na casa dela e todas as amigas mais íntimas sabem da existência” (da amiga Lili).
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*São tantos, mas a fala de uma faxineira do prédio talvez tenha dado o exemplo mais candente dos muito paradoxos associados ao suicídio: “Conversei rapidamente com ela…Não chorava e falava normalmente”. Tomada a decisão, a pessoa costuma dar a impressão de racionalidade extrema, a ponto dos demais acharem que a pessoa está “melhorando” e superando seu drama. É um ponto quase sem volta: “A árvore da vida não é a mesma árvore da razão” (Lord Byron).