GW LEIBNIZ: DEUS COMO INSTRUMENTO DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA-I
(Preparando o caminho para a não necessidade de Deus)

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INTRODUÇÃO: algumas das questões que vamos discutir (a origem de todas as coisas, seu destino e outras) são IRRESPONDÍVEIS. Por isso, obrigam à constatação de sempre haver algo para além da FÍSICA…uma METAFÍSICA*. Mas quantas boas consequências derivaram, para a própria FÍSICA, da humildade diante dessa metafísica! Curiosamente, a aposta em uma sabedoria divina—capaz de harmonizar as maravilhas que vemos à nossa volta, implicando a não necessidade de novas “intervenções divinas” (HARMONIA PRÉ-ESTABELECIDA)—acabou por abrir caminho para que a crença em Deus perdesse força, como antecipou S. Clarke (porta-voz de Newton, em Correspondência com Leibniz): “…essa ideia introduz o materialismo e a fatalidade, tendendo…a banir do mundo a providência e o governo de Deus…Se um rei tivesse um reino onde tudo ocorresse sem que ele as ordenasse, seria um reino apenas nominal…não mereceria o título de rei ou governante”. Efetivamente, através do princípio “DA RAZÃO (ou causa) EFICIENTE”, Leibniz dava fim aos milagres**: tudo o que ocorre no mundo físico precisa ter uma causa (física) eficiente; “Deus apenas segue as leis que estabeleceu” (“Discurso da Metafísica”). Sua formulação de PRINCÍPIOS, buscando sintonia com uma sabedoria divina (como vou tentar demostrar abaixo), propiciaram a antecipação, em mais de 200 anos, dos achados que os pesquisadores fizeram no séc. XX. A tecnologia propiciou a confirmação das teses daquilo que Leibniz denominou FÍSICA DINÂMICA (termo por outros também utilizado): TUDO, na natureza, é dotado de energia, vida e movimento. A inércia, defendida por cartesianos e Newton, é apenas aparente: “Os princípios da natureza são metafísicos!” (Discurso da Metafísica)
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MAS…QUAL O PAPEL DE DEUS EM TUDO ISSO?
Costumamos associar a crença em Deus (es) a um empecilho à evolução do conhecimento científico. Entretanto, em se tratando de um dos maiores pensadores da história, não foi bem assim. Os PRINCÍPIOS por Leibniz estabelecidos, tendo como referência a origem de tudo por uma sabedoria superior, refutaram os erros de muitas concepções parciais e mecanicistas defendidas pela quase totalidade dos pensadores a partir de Descartes e Newton. Vejamos os exemplos:
1- Os “átomos bolinhas duras”: defendidos por Demócrito e abraçados por Newton, como indivisíveis e sem interação para além da mecânica. Foram, finalmentes derrubados por M. Curie (1864-1937) que demonstrou haver intensa energia interna nos chamados átomos, assim como sua divisibilidade, confirmando a afirmação de Leibniz: “Não admito, na matéria, porções perfeitamente sólidas…sem nenhuma variedade de movimento em suas partes como são concebidos os pretensos átomos” (Correspondência com Clarke).
PRINCÍPIO: Deus não criaria porções (“unidades”) não reagentes da matéria com restante do universo, assim como “O conhecimento é um oceano único” (Novos Ensaios”).
2- A existência física e concreta de TEMPO/ESPAÇO: defendidos por Newton e derrubados por Einstein com sua Teoria da Relatividade, confirmando as teses de Leibniz. PRINCÍPIO: “Se a realidade do espaço e do tempo é necessária para Deus…Se estar no espaço é uma propriedade de Deus, Deus será dependente do tempo e do espaço”. Há hoje uma admissão generalizada de que ESPAÇO e TEMPOnão têm existência própria, até porque TUDO está sempre pleno de matéria e energia (“energia escura”, cerca de 75% do universo; “matéria escura” cerca de 20% e matéria palpável, cerca de 5%). É o que vem sendo demonstrado por pesquisas recentes.
3- O VÁCUO: também defendido por Newton, “inventado” para “explicar” o movimento dos “átomos bolinhas duras” (um erro para “explicar” outro erro). Tendo esses pretensos “átomos” caído—por sua divisibilidade, fluidez interna e interação com o universo inteiro—foi junto com ele o VÁCUO.
PRINCÍPIO: Deus não produziria um NADA, o máximo da imperfeição: “Existem substâncias imateriais, capazes de se estender ou de encolher que passeiam por esse espaço e que se interpenetram…” (“Correspondência…”)
Quando comprovou a RELATIVIDADE do tempo e do espaço, Einstein foi se desculpar na tumba de Newton. Pobre ciência! Reverenciando um TÓTEM! Deveria, em nome da ciência e da verdade, ter ido ao túmulo de Leibniz dizer em alto e bom som: “VOCÊ TINHA TODA A RAZÃO!”. Com isso, porém, ofenderia o PODER INGLÊS! Bem…Como todos sabemos, desagradar aos poderosos é perigoso para a carreira de pesquisadores. Quem age segundo PRINCÍPIOS costuma ter seu caminho bloqueado, até nas UNIVERSIDADES!
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TROCANDO OS ÁTOMOS (matéria) POR MÔNADAS (energia): “Monades sont les véritables Atomes de la Nature…les éléments des choses”. (“La Monadologie”)Foi um avanço enorme. Afinal, demonstrar que a tão desejada UNIDADE na natureza deveria ser procurada na ENERGIA e não na MATÉRIA apontava para a superação da dicotomia res extensa X res cogitans. Quando listamos seus tipos, então, percebemos uma continuidade muito sugestiva.
O “último passo”, porém: a possibilidade da transição da matéria/energia até a mente humana (sem necessidade de Deus) Leibniz não deu. Alguns autores afirmam ter ele limitado o conceito de mônada aos seres vivos. Assim, os vegetais seriam a primeira delas. Não é o que sugere a citação acima: “les éléments des choses”.
1- MATÉRIA/ENERGIA (dita “mônada nua“) fundamento de todas as coisas. Tudo seria cheio de vida e força, contrariamente à res extensa e sem vida: “Não há nada inculto, estéril ou morto no universo” (“Monadologia”). Os que defendem ser a Terra um ser vivente (“Teoria de Gaia”) tiveram um precursor.
2- ANIMAIS IRRACIONAIS, dotados de alma e inteligência. Criar MEMÓRIAS (acessíveis) de fatos seria mais um critério. Por isso, a inclusão aqui dos vegetais fica pendente. Há aqui uma deficiência que a formulação de mais uma mônada resolveria, aprimorando a noção de continuidade. O DNA não deixa de ser uma memória e até o gênero ele antecipou para a reprodução das plantas: “A analogia com as plantas nos fornecerá maiores luzes…a poeira (pólen) que se faz notar poderia corresponder ao próprio sêmen masculino”; “…um pó (pólen…) que o vento espalha para juntá-lo ao grão que pode vir a mesma planta ou de outra vizinha da mesma espécie, numa analogia com o macho”. (“Novos Ensaios”- Livro I-cap. VI)
3- SERES HUMANOS e sua mente racional, capazes para a reflexão (APERCEPÇÃO interna) e de procurar explicações para os fenômenos da natureza, para além da sua relação meramente empírica e temporal. E foi aqui que Leibniz cometeu seu pior erro, mas em outro livro: “…quoique l’âme ne puisse venir que d’un sexe” (embora a alma só possa provir de um sexo, “Novos Ensaios” Livro III-VI). Foi um problema ao qual ele parece não ter retornado, mas que erro interessante! É um reconhecimento da origem do que se chamou alma (ou mente, como diz em outros momentos) a partir e em função da sua relação DIRETA com a natureza e por ela mesma engendrada. Por sorte, ele não assinalou a partir de qual dos sexos.4- DEUS, origem de todas as demais, segundo o PRINCÍPIO da Harmonia Pré-estabelecida; antecipação do PRINCÍPIO de A. Lavoisier (1743-94): na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. Por não ser muito voltado à filosofia, não se preocupou com a possível origem de tudo****.
A HARMONIA PRÉ-ESTABELECIDA não excluía (nas relações humanas) sofrimentos, choques e conflitos, comparados por Leibniz com as dissonâncias na música: “…os grandes músicos misturam dissonâncias e consonâncias, de maneira a que o ouvinte fique em suspensão e um tanto ansioso pelo resultado, alegrando-se quando tudo volta à ordem” (“Da Origem Primeira das Coisas”).
A caricatura amesquinhadora feita por Voltaire, como se a HARMONIA PRÉ-ESTABELECIDA se referisse às relações humanas, acabou por atingir duramente a imagem de Leibniz. Pior ainda foi feito com sua afirmação quanto a Deus ter criado “o melhor dos mundos possíveis”, em resposta àqueles que cobravam explicações para as inúmeras guerras e catástrofes da época. Não viram, naquela afirmação, uma LIMITAÇÃO ao poder de Deus: “mundos possíveis” derruba, necessariamente, a onipotência divina. Imagino até Deus indo descansar definiticamente e dizendo: “Welt, gute Nacht!!” (“Mundo, boa noite!”, Cantata de JC Bach). Já às criaturas que viriam: “Agora é com vocês!”.
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DANDO A FÓRMULA PARA O ABANDONO DE DEUS, MAS EVITANDO O CAMINHO!- (continua-II)
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*Conceito atacado à esquerda e à direita: pelos físicos que não convivem bem com a falta de respostas (não disse S. Hawkings que a filosofia estava morta?) e também pelos marxistas que debochavam da “coisa em si”, pois tornara-se “coisa para nós” (F. Engels).
**I. Newton e seus seguidores apelaram a forças milagrosas para “explicar” a gravidade, conceito que está por aí até hoje: o mais longo “IDOLA TRIBUS” da história!
***ESPAÇO: Apenas a ordem de coexistência de coisas; TEMPO: ordem de sucessão dos acontecimentos, segundo Leibniz.
****O mesmo fez PS Laplace (1749-1827) que, em resposta à pergunta de Napoleão quanto ao papel de Deus nas suas equações, respondeu: “Não trabalho com essa hipótese”.
““…marcas e traços tais como relações, expressões, representações—efeitos pelos quais causas passadas podem ser conhecidas...(E também que)…o presente estado da alma…é resultado do estado anterior e a causa dos estados da mente que virão… traços nos quais uma mente penetrante seria capaz de reconhecer o passado e o futuro…”“A analogia com as plantas nos fornecerá maiores luzes…porém não temos informações sobre sua geração: a suspeita da poeira que se faz notar como o que poderia corresponder ao próprio sêmen masculino ainda não está comprovada
LIVRO II-1 l’action n’est pas plus attachée à l’âme qu’au corps, un état sans pensée dans l’âme et un repos absolu dans le corps me paraissant également contraires à la nature.
monadologie”elles ne sauraient commencer que par création et finir que par annihilation ; au lieu, que ce qui est composé, commence ou finit par parties.
19-je consens que le nom général de Monades et d’Entéléchies suffise aux substances simples qui n’auront que cela ; et qu’on appelle Ames seulement celles dont la perception est plus distincte et accompagnée de mémoire.
20Dans cet état l’âme ne diffère point sensiblement d’une simple Monade ;24-Et c’est l’état des Monades toutes nues.-25ce qui se passe dans l’âme représente ce qui se fait dans les organes.56 et qu’elle est par conséquent un miroir vivant perpétuel de l’univers; 66’il y a un monde de créatures, de vivants, d’animaux, d’entéléchies, d’âmes dans la moindre partie de la matière.;72il n’y a pas non plus des Ames tout à fait séparées, ni de génies sans corps. Dieu seul en est détaché entièrement; 77. Ainsi on peut dire que non seulement l’âme (miroir d’un univers indestructible) est indestructible, mais encore l’animal même
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