SEGUNDO “PASTERNAK & CIA”, COPÉRNICO NÃO SERIA UM CIENTISTA!
(Confundindo métodos de verificação—para uma certa época—com o espírito científico!)

INTRODUÇÃO- na apresentação e defesa de seu livro: “Que bobagem, Pseudociências e…”, no qual atacam a psicanálise (e o que chamaram “terapias alternativas”), os autores fizeram várias afirmações que mostram seu total despreparo em relação ao tema. A pior delas foi comparar o trabalho de investigação e terapêutica em psicologia com o uso de mapas e bússolas à procura de caminhos e locais, depois de promovida uma convenção (à maneira das CNTP, pois até essas estão sempre variando): “Um bom mapa corresponde ao território. Conhecidas as convenções…deve ser possível…estudar a área descrita”.Pasternak e Cia “Mapeamento” é um termo utilizado em genética, estudos de imagens e outros, mas é bom lembrar que nem os neurologistas tratam mais o cérebro com a perspectiva localizacionista típica do POSITIVISMO de triste memória. Há, sim áreas que predominam em certas funções. Mas o cérebro/mente (como um todo, em íntima relação com o corpo) funciona como…um todo**. Considerando que até para o estudo da geografia, mapas são necessariamente REDUCIONISTAS—afinal, o mundo é esférico e tem pelo menos 3 dimensões—o que dizer da aplicação da metáfora àquilo que sequer tem dimensões físicas: a MENTE HUMANA?! Foi uma escorregada. Além disso, os autores acusaram os defensores da psicanálise de não serem abertos à crítica, etc. Mas…de que crítica estão falando se classificam tudo de que discordam como…BOBAGENS? O que esperavam? Que os colegas respondessem “Nós não somos bobos não!”? Trata-se de um título que só desqualifica os próprios autores. Há poucos dias, vi a pobre Pasternak se desculpando com profissionais ligados às “terapias alternativas” em programa de TV. Falava como se dirigindo a pobres criancinhas. Mas, não duvidem: a PSICANÁLISE era o alvo principal dos ataques. É ela que, com seus princípios libertários e promotores de individualidades, ameaça a “psicologia de controle de massas” que os autores representam; aquela mesma “psicologia” que, através de múltiplas mídias (também comprometidas no processo), tem sido usada para manipular povos mundo afora.
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PS- Este texto estava publicado quando ouvi que a psicanálise foi classificada por “Pasternak & Cia” como um “HOMEM BOMBA” contra a ciência. É uma forma de reconhecer o seu PODER. Foi um ATO FALHO e os psicanalistas devem se orgulhar do medo que provocam em mentes estreitas. Lembrei-me até do “EU SOU DINAMITE” (Nietzsche) contra todo saber que mutila os objetos de estudo para que caibam na mesquinhez de suas próprias medidas.
A HIPÓTESE DE COPÉRNICO PRECISOU ESPERAR POR GALILEU!
Quando publicou sua obra apresentando um novo modelo para a organização e funcionamento do sistema solar, N. Copérnico (1473-1543) não dispunha de instrumentos de comprovação e verificação que confirmassem sua adequação. Somente quando Galileu (1564-1642) demonstrou não existir a tal campânula de vidro que envolveria o Universo—ao caracterizar a existência de satélites em Júpiter (1610) e outros achados—as hipóteses do polonês foram levadas a sério por toda a comunidade científica (mas não somente), passando a sofrer perseguições pela igreja e outros poderes da época. Aos cultores das evidências, parecia EVIDENTE (palavra traduzida pela expressão popular “aquilo que salta aos olhos”) que o sol todo dia girava em torno da Terra! Pois eu afirmo que quem precisa de evidências para investigar alguma coisa não tem muita sutiliza no olhar. Submetido aos “critérios Pasternak”, por um seu contemporâneo imaginário, a hipótese de Copérnico provavelmente seria tratada como…”bobagem” por falta de…evidências. Desenvolver instrumentos de verificação e aferição de resultados é sempre um objetivo em ciência. Mas a doutora se esqueceu de que quase todo conhecimento cietífico começa pela carcterização de sinais observados à nossa volta: uma Semiologia (de semion, sinais em grego). O próximo passo é sua associação de maneira a produzir uma teoria e hipóteses a serem testadas…quando a tecnologia assim o permitir (a exemplo do telescópio de Galileu).
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DAS PECULIARIDADES DA INVESTIGAÇÃO PSICOLÓGICA E PSIQUIÁTRICA!
Nada melhor do que um exemplo para mostrar como quem conta com “mapas” continuará perdido por aqui: um pré-adolescente de grande vivacidade, em um período de férias e suspensão de atividades grupais, passa a manejar um celular de maneira quase ininterrupta por vários dias, apesar dos protestos cuidadosos dos seus pais. Certo dia, vai ao banheiro e, subitamente, começa a gritar um tanto desesperado, sem que ninguém entenda o que está se passando do outro lado. Batem à porta e, depois de algum tempo, ele abre e informa, bastante desconcertado, que o celular caíra no vaso sanitário (tendo já sido feitas as 2 necessidades). Pelos “critérios Parsternak” o fato seria atribuído a um mero acaso e não haveria nada de mais profundo a refletir a respeito. De minha parte, pensaria na possibilidade de ter se tratado do que Freud chamou um ATO FALHO: conduta ou fala implicando um aparente equívoco, mas que representaria, em verdade, uma expressão da DUALIDADE humana (associada aos 2 hemisférios que frequentemente se chocam no seu funcionamento). O ato poderia ter sido determinado por sentimentos…(com o perdão da palavra) INCONSCIENTES**. Eu não concluiria nada, mas reservaria a hipótese: algo nele estaria resistindo à captura que certas mídias exercem sobre quase todos nós, para verificação a partir de outros indícios de sua razoabilidade. PERGUNTA: qual conduta seria, digamos assim, a mais científica: 1- aquela que mata no nascedouro qualquer possibilidade de investigação de um acontecimento (atribuindo tudo a mero acaso!); 2- ou a que supõe haver ali uma questão a ser observada e investigada? Afinal, se há uma conduta que um cientista digno do nome deve adotar é evitar a preguiça intelectual que tende a associar os fenômenos da natureza a meros acasos. Sim, eles existem, mas cultivá-los para “explicar” a natureza (e é bom lembrar que pertencemos à natureza) talvez seja mais deletério do que os atribuir causas a forças divinas e esotéricas. Ver o potencial lesivo em:
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MENTES COMPARTIMENTADAS ATACANDO TAMBÉM ARTES E LITERATURA!
“A psicanálise só é levada a sério porque tem grande influência nas artes e literatura” (“Pasternak e Cia”). Aqui se afundaram no ridículo. Como assim? Vamos ajudá-los: certamente queriam dizer: “…tem grande influência na interpretação e entendimento…das artes e literatura”, não na sua produção! Bem, considerando que foram os grandes literatos: Stendhal, Dostoiévski, Tolstói, Balzac, Maupassant, Machado, L. Barreto e outros, aqueles que melhor desvendaram a mente (alma para alguns) humana, a psicanálise está em muito boa companhia. Há também, naquelas palavras, uma depreciação das artes e da literatura, apenas não tiveram a coragem de explicitar. Certamente consideram-nas mera diversão e passatempo. Que Freud tinha uma mente CIENTÍFICA atesta-o o ter passado mais de 5 anos dedicado a produzir uma SEMIOLOGIA para a investigação do inconsciente. Afinal, TODAS as ciências se iniciam por uma semiologia. Tenho a impressão de que ninguém disso se deu conta, mas o que representa a série de textos publicados entre 1900-5 sobre: sonhos, chistes, atos falhos e outros, senão uma SEMIOLOGIA para a investigação do inconsciente? Se ele fosse esperar por mapas…pobre psicologia! A constatação da existência de atividade inconsciente era já muito antiga. GW Leibniz chegou até a propor sua investigação, levada a efeito por seu seguidor W. Wundt séculos depois. Nietzsche chegou a dizer que a consciência é uma “casquinha de ovo” e que estaria longe de representar a unidade de uma pessoa (“A Gaia Ciência”). Mas ninguém, antes de Freud, preparou o caminho para a demonstração de existir um inconsciente dinâmico, dotado de uma certa autonomia e quase vida própria, o que está amplamente comprovado pela existência de Transtornos Dissociativos, especialmente as “PERSONALIDADES ALTERNANTES”.
Como aqueles autores são cartesianos por natureza (ainda que não o admitam…conscientemente), certamente precisariam produzir 2 mapas. Descartes (1596-1650) também fez algumas incursões desastradas em psicologia (“As Paixões da Alma”): 1- “Do RISO- O riso consiste em que o sangue…inflando os pulmões faz com que o ar neles contido seja obrigado a sair com impetuosidade” (art. 124); 2- “Dos SUSPIROS-…Somos incitados a chorar quando os pulmões estão cheios de sangue e a suspirar quando se acham quase vazios e quando uma imaginação de esperança ou alegria abre o orifício da artéria que a tristeza estreitara” (art. 135); 3-“Por que o RISO não acompanha as maiores alegrias-…a razão disso é que, nas grandes alegrias, o pulmão está sempre tão cheio de sangue que não pode encher-se mais repetidamente” (art. 126). Foi a primeira tentativa de “mapear” a relação mente-corpo, a partir da caracterização da circulação do sangue e do papel do coração (1628) por W. Harvey!
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*Várias observações têm confirmado a tese de Leibniz de existir alguma independência da MENTE em relação ao CÉREBRO. Os assim chamados neurônios espelho, demonstrando que vivemos em um espaço interpessoal; a tomada de decisão quanto à luta ou fuga (para um estado cerebral muito parecido); o fato da mente não se desenvolver de forma HUMANA nos meninos criados com lobos e outras observações o comprovam.**Em sua “Psicopatologia da Vida Cotidiana” Freud relata sua quebra involuntária de um tinteiro, cuja derrubada teria um simbolismo. Discute também, em situação bem mais dramática, a derrubada de um jarro de flores. Em seu “O IDIOTA”, Dostoiévski relata o medo e cuidado do personagem para, durante uma visita, não quebrar um vaso chinês que acaba por quebrar. Pasternak veria nisso apenas…”curiosidades”. Mas Freud forneceu os antídotos para os excessos na área ao dizer: “Por vezes, um charuto é só um charuto!”.