“A PAIXÃO DE NIETZSCHE”: DA APOTEOSE DO NARCISISMO AO COLAPSO-III

(Cristo em seus momentos mais humanos…nunca demasiadamente humanos)

……………………………………………………….

https://educacao.uol.com.br/noticias/2023/04/02/ja-viu-estatua-de-nossa-senhora-gravida-elas-existem.htm


N.Sra Grávida: Estátua que foi banida das igrejas por ser “Demasiadamente Humana”.

“…A ruína dos homens mais elevados…constitui a regra: é horrível ter diante dos olhos uma tal regra. A múltipla tortura do psicólogo que divisou essa ruína…essa incurabilidade interior do homem elevado, esse eterno “Tarde demais!” em todos os sentidos pode vir a ser causa dele se voltar com amargura contra sua sorte e fazer uma tentativa de autodestruição” (“O que é Nobre”, último cap. do “Além…”). 

Que a palavra narcisismo seja aqui entendida não no sentido habitual e um tanto vulgar, mas no que foi a inspiração grega do conceito: alguém que se afoga no seu afastamento do mundo, como que mergulhando em si mesmo. E é no extremo do apocalipse de uma personalidade (sugestivamente no seu ANTICRISTO), que isso é dito com todas as palavras; as mais terríveis que se podem imaginar: “Há dias em que sou visitado por um sentimento mais negro que a mais negra melancolia — o desprezo pelos homens. Que não haja qualquer dúvida sobre…quem desprezo: é o homem de hoje, do qual desgraçadamente sou contemporâneo” (XXXVIII). Desde tempos imemoriais, dos “Torquemada” aos “Jim Jones”, “inventar” homens ideais tem sido a senha para aniquilar os seres humanos existentes. Pois se partem da sua não aceitação! O caos nietzschiano (perda do “centro de gravidade”) já fora anunciado: Quando o centro de gravidade da vida é colocado, não nela mesma, mas no “além” — no nada —, então se retirou da vida o seu centro de gravidade” (XLIII). Redundâncias à parte, esse último é o Nietzsche que aprendemos a reverenciar; o mesmo que “gritou”, louvando a vida sem pré-condições: “Da capo!”. Mas ele aprofunda seus absurdos. O cristianismo teria sido uma insurreição contra ‘os bons e os justos’”, chegando à beira do ridículo ao dizer: “…do ressentimento das massas forjou sua principal arma contra nós, contra tudo que é nobre, alegre, magnânimo sobre a terra, contra nossa felicidade na Terra…”. De que “massas” está ele falando e quem são esses “Nós”? As pessoas simples que conhecemos são mais vítimas desse instrumento, que teria sido desenvolvido exatamente para o seu controle. 

E então, “O que é nobre?”. Deixando de lado sandices como “reverenciar a idade”; ser “contra os vindouros”; desprezar o “senso histórico”; a defesa de castas…há ali o enunciado de alguns grandes valores. Os nobres seriam, antes de tudo, honestos com eles mesmos; desprezariam o julgamento que outros fazem a seu respeito; condenariam a “covardia e a moral da utilidade” (típica dos ingleses); procurariam e assumiriam responsabilidades. Mas há, no aforismo 194, uma formulação tão bela e profunda—significativamente envolvendo a mulher—que precisa ser cantada em prosa e verso, inclusive para assinalar o valor que Nietzsche lhes dava (para além de eventuais arroubos em contrário). Depois de listar maneiras habituais pelas quais os homens procuram ser amados, chega àquele que não quer ser amado como “…um fantasma dele mesmo: deseja antes ser conhecido…em suas profundezas; para poder se sentir amado, ousa deixar-se penetrar. Só então sente a amada em seu poder*; quando ela não mais se engana acerca dele…quando o ama por suas diabruras e insaciabilidade oculta, tanto quanto por sua bondade, paciência e espiritualidade…’não se pode enganar quando se quer possuir’…’então preciso me deixar conhecer e antes conhecer a mim mesmo'”.

……………………………………………………….

UM ÚLTIMO PARALELO COM CRISTO… ANTES DA CRUCIFICAÇÃO!

Mais uma vez, os julgamentos absurdos do filósofo que veremos partem da idealização extrema da vida. Mas, não foi ele mesmo quem condenou, especialmente em Kant, essa idealização, demonstrando seus perigos para a própria vida? Nietzsche desmascarara o maior instrumento de controle das igrejas sobre os povos, ninguém o nega, mas dele não consegue se libertar de todo**. Quem disse que, a exemplo da Esfinge, o decifrar implica não se deixar devorar? Para algo tão extremo, o decifrar parece somente se dar durante o processo de estar sendo “devorado”…e já de forma irreversível.Sua própria linguagem denuncia esse sacrifício da vida de todo dia em estranhos e perigosos “altares”. Haveria: “vasos sagrados”“preciosidades de um cofre fechado”“livros com marcas de grande destino” em cuja presença “há um emudecer involuntário, uma hesitação do olhar, uma cessação de todos os gestos, indicando que uma alma sente a proximidade do que mais merece veneração” (par.263)Humano parece ser sentido como…demasiadamente humano…e pobre! Mas é na sua discussão sobre o amor que isso fica mais evidente. Depois de desprezar o amor muito “humano” (par. 269): “pobre, desamparado, presunçoso, estúpido, canhestro, destruidor, Nietzsche passa a falar (com um certo deboche cínico) da “santa fábula e disfarce da vida de Jesus”. Haveria ali: “o martírio do coração mais inocente e desejoso; que nenhum amor humano havia satisfeito…a história de um pobre insaciado e insaciável no amor…; que, conhecendo enfim o amor dos humanos, teve de inventar um Deus que é inteiramente amor…-que se compadece do amor humano, tão mísero…!”. Não é somente de Jesus de Nazareth que Nietzsche está falando. Há, em tudo isso, além de uma identificação, um conhecimento de causa: pessoal e intransferível. E vejam a confirmação no seguimento: “Quem sente desse modo; quem possui tal SABER a respeito do amor—PROCURA a morte—Mas, por que se entregar a reflexões assim dolorosas? Supondo que não se TENHA de fazê-lo”Estava mesmo aprisionado; uma FATALIDADE com que se defrontava. O “cálice” teria que ser bebido até o fim! Por tudo isso, quem abordar a obra do pensador a partir meramente de IDEIAS e FORMULAÇÕES teóricas sequer se aproximará dos conflitos as determinaram. É a limitação que tenho visto na maioria dos trabalhos acadêmicos sobre Nietzsche. A última limitação aqui é reduzir a compreensão de todo o processo a uma doença mental específica.

“Se caímos enfermos, resignamo-nos, em corpo e alma, por um tempo…Sabemos que o momento decisivo nos encontrará despertos. Então, algo saltará de sua proteção e surpreenderá a inteligência em flagrante delito…a ponto de nos fazer cair ou recuar…ou de contrair qualquer das enfermidades do espírito…”.“A Gaia Ciência” PREFÁCIO (1882): a enfermidade como passagem para revelações? Aproximação do COLAPSO do qual (ainda) conseguiu se desvencilhar?

……………………………………………………….

QUANDO CRISTO FOI MAIS HUMANO…NUNCA DEMASIADAMENTE…!

Mesmo sem ser religioso, sempre entro no espírito da (ou sou capturado pela) “PAIXÃO de CRISTO”. Seu sentimento de abandono—no Horto Getsemani pouco antes da prisão—quando se afasta para orar e, ao retornar, encontra todos dormindo profundamente (situação que se repete por três vezes), leva-o ao desabafo mais humano que se pode imaginar: “Ah! Quereis sempre dormir e repousar? Vede, chegou a hora em que o Filho do homem vai ser entregue na mão dos pecadores. Levantai-vos, já está aqui quem vai me trair!”. Revoltando-se contra o muito humano (aparente paradoxo), Cristo revelava ser “apenas” muito HUMANO, nunca demasiadamente! Ariano Suassuna também assinala esse momento no “Auto da Compadecida” pela voz de N. Sra, lembrando a Cristo de sua humanidade. 

Ouvindo a “PAIXÃO SEGUNDO SÃO MATEUS” de G.P. Telleman***, porém, deparei-me com uma passagem senão mais dramática, muito mais singela, terna e, por isso mesmo, talvez ainda mais HUMANA; capaz de atingir até o coração mais enrijecido: “Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, aproximou-se Dele uma mulher que carregava um jarro com um perfume precioso que derramou sobre Sua cabeça, sendo condenada pelos discípulos de Cristo: ‘Para que esse desperdício? Esse perfume poderia ter sido vendido e o benefício dado aos pobres!”. Eis que Cristo, certamente para surpresa geral, disse: “Por que afligis a essa mulher? Ela me fez um grande bem. Tereis para sempre pobres junto de vós, mas não a Mim…Será recordado para sempre o bem que ela acaba de fazer…”. Tudo isso em recitativos, árias e corais cuja beleza se pode imaginar. A conclusão a que cheguei foi a de que Ele precisou se aproximar da morte para poder ser HUMANO, totalmente humano, com seu potencial levado à sua maior expressão. 

………………………………………………………. FIM ……………………………………………………….

*Há que associar esse poder à conquista do amor; o mais desejado e legítimo de todos os poderes. Nas 2 últimas sentenças ele passa da conquista da mulher à conquista de um povo, o que também é significativo: seus dois sonhos nunca alcançados? E termina citando Catilina que não queria que “uma máscara sua comandasse o coração do povo”. Se em relação às mulheres isso já seria uma dificuldade, em relação a um povo, uma proeza quase impossível.

**Era mesmo difícil abrir mão do “pastorzinho” da infância e do adolescente que louvava o NATAL e suas festas como o maior acontecimento da humanidade!

***A de J.S. Bach é mais grandiosa, quase sobre humana, mas essa passagem é excluída. Já a de Telleman é bem mais próxima de nós.

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *