NIETZSCHE: O MAL QUE O SENTIMENTO DE EXCLUSÃO PODE FAZER!
(Tentando viver em uma “BRAINET” com seres imaginários e em um “futuro” quimérico)

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O próprio título do livro: “Além do Bem e do Mal”, como que obriga a que ali (como na entrada do INFERNO, em relação ao medo) seja suspenso todo o julgamento, inclusive em relação ao autor! É bom entender: não havia caminho suave e “racional” para o alcance de verdades terríveis que são hoje parte do “dia a dia” (até em uma banalização mesquinha) de qualquer autointitulado intelectual. Era preciso como que quebrar uma “crosta de gelo”! Tudo haveria de saltar—na mais terrível das tragédias humanas—como em erupção vulcânica; daquelas que atiram gelo e lava misturados pelos ares. Mas tudo ali, no estudo da MORAL, se inicia pela proposta mais racional e profunda de um MÉTODO que qualquer cientista assinaria (par. 186): “reunião de material, formulação e ordenamento conceitual de um imenso domínio de delicadas diferenças e sentimentos de valor que vivem, crescem, procriam e morrem…como preparação para uma tipologia da moral… Cada filósofo acreditou até agora ter fundamentado a moral; a moral mesma , porém, era tida como ‘dada’…em toda a ciência da moral, sempre faltou o problema da própria moral, faltou a suspeita de que ali havia algo problemático”. Como ele mesmo disse depois (Genealogia da Moral), para todas as esferas da investigação, tudo se inicia por levantamentos, estudos e classificações e só depois são tiradas conclusões e desdobramentos aplicáveis. Somente para com a MORAL, tudo se iniciava pelo “Você deve!…ou está proibido!” (10 MANDAMENTOS). Como bom ser humano que era, porém, o autor não poderia ir “Além do…Humano” (sob pena de acabar como Ícaro)! A solidão e o ressentimento cobraram seu preço; Nietzsche enveredou pelos mais perversos dos julgamentos, deixando o método por ele apresentado à espera de aplicações mais consequentes. Quem sabe o subtítulo da obra, um dia, alcançará seu fim: “Prelúdio a uma Filosofia do Futuro”!? Uma coisa é certa: no mais profundo dos abismos, Zaratustra haveria sempre de dançar e de gritar para a vida (por mais dolorosa…): “Da Capo”!
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ANTECIPANDO A MODERNA NEUROFISIOLOGIA EM QUASE 100 ANOS!
—“…o atomismo materialista está estre as coisas mais bem refutadas…graças ao polonês Boscovich*…É preciso liquidar aquele outro e ainda mais funesto: o atomismo da alma…como algo indestrutível, eterno, indivisível…Está aberto o caminho para novas versões e refinamentos da hipótese da alma:…“como pluralidade do sujeito” e “alma como estrutura social dos impulsos e afetos” (par. 12)
—“Nosso corpo é apenas uma estrutura social de muitas almas” (par.19).
—“A física é apenas uma interpretação do mundo…e não sua explicação” (par. 14)
…………………………………………. Citações de“Além do Bem e do Mal” ………………………………………….
O alcance dessas intuições impressionantes ainda não foi suficientemente valorizado e estabelecido! O conceito de “BRAINET” (rede de cérebros, embora um psiquiatra prefira pensar em “mindnet”) talvez represente o maior avanço resultante das pesquisas em neurofisiologia e o livro de M. Nicolellis (“O Verdadeiro Criador de Tudo”) faz sua apresentação em alto estilo. Ele mesmo certamente reconhecerá que Nietzsche está fazendo falta na sua bibliografia. O quanto aquelas citações antecipam suas formulações é uma questão. Do ponto de vista da psiquiatria/psicologia, talvez a própria atividade delirante implique a criação de uma “brainet” no vazio de interações. O desafio, para os muito críticos, continua o mesmo: como preservar a INDIVIDUALIDADE, uma vez que os “controladores de mídias e mentes” costumam ser mais hábeis nesse terreno. Nesse sentido, podemos dizer haver duas psicologias em disputa no mundo: 1- aquela que investe no esforço do autoconhecimento, no estímulo à crítica individual, resultando em maior liberdade e respeito, a si mesmo e aos demais; 2- e a que serve aos “controladores do mundo e das mídias”, com os objetivos que todos conhecemos. A primeira nasce inspirada em Leibniz, W. Wundt, Nietzsche, S. Freud (e seus seguidores, com ênfases diferentes) e a segunda que também teve um Freud entre seus fundadores (um sobrinho que se mudou para os EUA). Muito significativamente, seus próceres parecem gostar do anonimato e da IMPESSOALIDADE. Talvez sua melhor alegoria se encontre nos “Devoradores de Almas” (“Soul Eater”) de inspiração muito inglesa: “Dr Franken Stein transformou Sid em zumbi (baseado no romance de M. Shelley: amálgama do cientista e de Frankenstein”)!
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EM “AURORA” UMA ANTECIPAÇÃO: O “EU NEBULOSA”!
Nietzsche começa por uma afirmação em relação a Descartes que nem seus maiores seguidores conseguiriam contestar: “É superficial!”. Afinal, não fez o francês apologia da clareza como critério, reduzindo o mundo da matéria e a vida orgânica à extensão? Ou seja, foi um superficial convicto, especialmente ao tornar o MÉTODO um fim em si e não um instrumento de aproximação dos fenômenos**. Assim, o “Eu penso, logo Eu existo”—tomando o Eu como critério para a certeza da existência de algo—foi mudado por Nietzsche para “somos algo que pensa”. A própria palavra “indivíduo” (aquilo que não se pode dividir) deveria ser trocada para “dividuum”, uma vez que somos divididos por natureza, condição obrigatória para a vida em sociedade***. Mas Nietzsche vai além e cria a expressão “eu nebulosa”, uma metáfora para uma reunião de inúmeras estrelas. Nosso Eu estaria, em verdade, lutando permanentemente pela conquista de alguma individualidade (sempre parcial). A descoberta dos “neurônios espelho” (1994) demonstrou a total pertinência dessas observações: vivemos (digo eu) como que em um espaço interpessoal; o “eu isolado é uma ficção” (Nietzsche). Sendo assim, e voltando à nossa tese principal, é de se supor que o sentimento de EXCLUSÃO; de não pertencimento a nenhuma rede, deva ser um dos piores sentimentos pelos quais alguém pode passar (ou sucumbir, pois são muito associados ao ato suicida). Alguém poderia perguntar quanto a haver diferença entre: “ser excluído” ativamente por outros, ou ter a ilusão de que a exclusão deriva de uma intenção de autoexclusão. Parece haver alguma diferença, mas estou certo de que não quanto a seus efeitos no próprio indivíduo, provocando RESSENTIMENTOS, queda no vazio, hostilidade generalizada e tendência à autodestruição.
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OS “CÃES ANARQUISTAS” e os “BOÇAIS FILOSOFASTROS SOCIALISTAS” (em “ALÉM…”)
Pode alguém duvidar de que essas palavras foram ditadas pelo RESSENTIMENTO? Nietzsche (1844-90) é contemporâneo do auge dos movimentos políticos e “de massa” que tomaram a Europa, a partir da França. Suas primeiras manifestações são brevemente descritas na obra de Stendhal, “Lucien Leuwen”, com greves e repressão militar (década de 1830/40) nas vilas de trabalhadores. Não seria absurdo, considerando a imaginação quase infinita do filósofo e sua tendência à megalomania, supor ter ele sonhado gerar algum movimento (com seguidores) que influenciasse os caminhos da cultura e do mundo: “…nós, que consideramos o movimento democrático uma forma de decadência…para onde apontaremos as nossas esperanças?—Para novos filósofos…espíritos fortes e originais o bastante para estimular valorações opostas…e transtornar” (par. 203). Os desvarios são infindáveis, mas nada supera o absurdo de: “…Ensinar ao homem o futuro do homem como sua vontade; dependente de uma vontade humana…”. Mais um pouco e estaremos diante do “Triumph das Willen” (“Triunfo da Vontade”, filme nazista, 1934), em vez do “Willen zur macht” (Vontade de Poder). São incontáveis suas sentenças iniciadas por “Nós”: “Nós, espíritos livres!”, “Nós, imoralistas!”. Entretanto, todas as conquistas sociais e coletivas (envolvendo algum “nós”) são motivo de deboche: “…fazem-se hoje muitas tentativas de substituir os comandantes pela soma acumulada de homens de rebanho sagazes: eis a origem de todas as Constituições representativas”. Em se tratando de temas e conquistas de coletividades humanas, Nietzsche era atingido de uma cegueira desconcertante (especialmente para aqueles que foram profundamente atingidos por suas intuições e formulações). Condenar e debochar de CONSTITUIÇÕES! O pensador que, antes dos 30 anos de idade, surpreendera a intelectualidade germânica como uma voz isolada na condenação ao militarismo prussiano (“Considerações Extemporâneas”)—assinalando ter sido a vitória contra a França (1870-1) um perigo para a cultura—parece ter tido uma recaída aos seus tempos de escola, quando afirmou: “Não há nada mais desejável do que ter uma disciplina severa…A mesma disciplina faz eficientes tanto o soldado quanto o estudante…não existe um verdadeiro estudante que deixe de ter os instintos de um soldado em suas veias” (“O JOVEM NIETZSCHE”)
file:///C:/Users/User/Downloads/TheYoungNietzsche_10191297.pdf.
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*“…Uma substância não pode estar sem ação ou sem movimento…sendo essa uma das provas que tenho para negar os átomos…Deve-se conceber o espaço como cheio de matéria originalmente fluida, susceptível de todas as divisões e subdivisões…não existe corpo que seja duro e sólido em grau supremo…no qual se encontre um átomo de dureza insuperável nem massa indiferente à divisão” GW LEIBNIZ, “Novos Ensaios”, PREFÁCIO. A ignorância dos próprios alemães em relação à obra de Leibniz é impressionante. Assinalo-o em outro texto.
** Ouvi de um pesquisador em farmacologia a anedota: “O pesquisador é como um homem, à noite e sob um poste de iluminação, com uma chave, tentando abrir um carro que não está lá. Diz alguém: “V. não está vendo que o carro não está aí?” R: “Sim, mas aqui tem luz!'”. Sem desmerecer as pesquisas, pois qualquer novo conhecimento nos aproxima da natureza, o problema está em tomar nossos conhecimentos parciais como a natureza em si. Qualquer conhecimento implica apenas mais um elo em longa cadeia. Leibniz já o dissera ao falar da classificação de animais e plantas: “É necessário muito cuidado e experiência para atribuir gêneros e espécies de maneira suficientemente próxima da natureza” (“Novos Ensaios”, Livro III-VI).
*O Eu é Dual (Baudelaire). Somos dotados de 2 almas (” O Espelho”, M. de Assis)