NIETZSCHE: “IMPLODIR” A FALSA MORAL…LIBERTAR A PSICOLOGIA
(400 anos depois de MONTAIGNE, a definitiva “erupção” da sexualidade como um valor)
……………………………………

NOTA: Nos primeiros textos dessa série, perguntei por que a civilização precisou levar a extremos seus ataques à natureza em geral, especialmente às suas expressões em nós* (a sexualidade, principalmente). Não havia nisso grande novidade: “Falamos da natureza, mas nos esquecemos de que nós mesmos somos também natureza…” (Nietzsche, “O Caminhante e sua Sombra”-327). Quatrocentos anos antes, M. de Montaigne (1533-96) protagonizara uma eclosão da vida e da natureza em nós (especialmente da sexualidade-ver texto da série) depois de muitos séculos de ataques e fogueiras promovidos pela Igreja Medieval. O “Idealismo Alemão” (a partir de Kant) se encarregou de abafá-la por outros dois séculos. Até que Nietzsche, em uma espécie de erupção vulcânica, atirou pelos ares a carapaça do “gelo kantiano” estendido sobre a filosofia**.
……………………………………
“…É fato medonho que a antinatureza tenha recebido as mais altas honrarias…Ensinou-se o desprezo pelos principais instintos da vida…Ensinou-se a procurar por impurezas nas premissas da vida, na sexualidade…: “a moral é a idiossincrasia do decadente com a intenção oculta de se vingar da vida…”. (Nietzsche, “Ecce Homo”)
“…procriação impura; nutrição nauseabunda ao seio da mãe; má qualidade da substância de onde provém; mau cheiro, secreção de saliva, de urina e excrementos”, do Papa INOCÊNCIO III, sobre os humanos (citado por Nietzsche em A Genealogia da Moral)
……………………………………
Quem se aventurar a escrever sobre a relação entre NIETZSCHE e a SEXUALIDADE corre o risco de se tornar um mero citador de sentenças, tal sua profusão. E como falam por elas mesmas, com clareza e sem artifícios! Qualquer comentário sobre elas se arrisca a mais atrapalhar do que esclarecer. Por isso, junto às citações mais candentes e “explosivas”, vou discutir sua afirmação quanto a ser, ele mesmo, o PRIMEIRO PSICÓLOGO, o que repeti até me dar conta de que a Psicologia tem um fundador: W. Wundt (1832-1920)***. Havia, porém, um salto a ser dado nesse saber que somente Nietzsche poderia dar (e do qual Freud é herdeiro): o resultante do ataque frontal a toda MORAL, dita cristã, que abafou a expressão (e o estudo, como veremos abaixo) das mentes por muitos séculos. E o raciocínio quanto ao porquê de Nietzsche ter sido mesmo o primeiro psicólogo (para um certo caminho da Psicologia) é relativamente simples: apresento-o adiante (baseado na Genealogia da Moral). Lembremo-nos, porém, de que todo o poder do sacerdote baseava-se em provocar medo: das pessoas em relação a elas mesmas (pois sentiam a presença, em suas mentes, do que devia ser repudiado) e da expulsão de algum “paraíso”: “O temor é o pai da moral…tudo o que eleva o indivíduo acima do rebanho e infunde temor ao próximo é doravante apelidado de mau” (“Além do Bem e do Mal”). Quem mais estava preparado para confrontar as crenças globalmente aceitas e enfrentar a solidão que certamente viria?
……………………………………
PRESCRIÇÕES MORAIS: SEM INVESTIGAR O QUE SOMOS?!
É fato conhecido que toda ciência se inicia: 1- pela caracterização de sinais (uma SEMIOLOGIA, abrangendo sintomas, no nosso caso); 2- sua reunião e estudo, buscando correlações e coerência; 3- que resultam em teorias e, nosso caso; 4- até em instrumentos e mecanismos de intervenção terapêutica (sob a forma de prescrições). Esse é o caminho que seguem todas as ciências. Somente a MORAL (em verdade o moralismo, pois acredito haver, SIM, uma moral nas relações humanas) se iniciou pelas PRESCRIÇÕES: “Você tem que ser assim!”, como nos “10 Mandamentos” e outros. Há quem se apresente como cientista e tente contornar o problema dizendo que a MORAL não deve ser objeto de investigação! Não passam de “coroinhas” a serviço de falsos sacerdotes. Sua estrutura e códigos, apresentados como “valores morais”, era uma barreira incontornável para qualquer investigação com a intenção de entender o que somos: uma PSICOLOGIA. Precisava ser implodida. Por isso, os romancistas e poetas avançaram muito mais na compreensão do ser humano do que os moralistas e/ou filósofos que reproduziram aquelas mesmas prescrições moralistas, apenas que sob uma linguagem filosófica e rebuscada (Kant e seus seguidores). Mas essa implosão da moral só seria possível a partir de uma terrível TRAGÉDIA pessoal; uma fatalidade chamada Nietzsche; alguém que, na infância, ficou conhecido como “pastorzinho” e assinou suas últimas cartas como “O Crucificado”.
……………………………………
A SEXUALDADE INSPIRANDO O QUE HÁ DE MAIS ELEVADO!
“Platão diz, com inocência grega, que não haveria filosofia platônica sem os formosos mancebos de Atenas, posto que sua contemplação é o que transporta a alma dos filósofos a um delírio erótico …Melhor seria definir a filosofia, tal como praticada por Platão, como uma espécie de palestra erótica…A elevada cultura literária francesa clássica gira em torno de motivos sexuais…” (“O Crepúsculo dos Ìdolos”– 21).
A acusação que habitualmente se faz a Freud—de que, na base de todas as nossas expressões, identificava a sexualidade— é muito mais aplicável a Nietzsche. A diferença é que este último a associa a tudo o que há de mais elevado na nossa expressão na vida, olhar que Freud nem sempre aplica. Exagero!? Não! O próprio Nietzsche se encarrega de o demonstrar, afinal, a sexualidade implica a perpetuação da vida e a natureza tudo faz para se reproduzir, sempre! Mais uma vez, é nos gregos que ele busca inspiração: “…o símbolo sexual era, para os gregos, venerável por excelência…as particularidades do ato da geração, da gravidez e do nascimento despertavam pensamentos elevados e solenes…não conheço simbolismo mais elevado do que o das festas dionisíacas. O mais profundo instinto da vida: o da vida futura, traduz-se ali de uma forma religiosa. A procriação é o caminho sagrado da vida. O cristianismo, ao investir contra a vida, fez da sexualidade algo impuro…” (idem). Mentes sujas tinham os calvinistas que tentavam “vestir” os povos conquistados, sob a desculpa de “encobrir suas vergonhas” (expressão lusitana)! Ouvi de uma pensadora portuguesa (em documentário) a referência ao abalo moral que a “descoberta” do Brasil provocou por lá: se os cristãos eram os “povos eleitos por Deus”, como era possível haver tanta gente mais feliz, saudável e bela onde seu Deus sequer era “conhecido”? A “solução” encontrada para o paradoxo: tudo fizeram para enquadrar os povos autóctones no seu modo de “desviver” a vida. Com isso, foram tornados “inferiores”. Para introduzir o próximo parágrafo: “A igreja combate as paixões pelo método de extirpação radical…a castração. Não se pergunta jamais: como se espiritualiza, embeleza e diviniza um desejo…Atacar as paixões em sua raiz é atacar a raiz da vida; o processo da igreja é nocivo à vida” (“O Crepúsculo dos Ídolos”)
……………………………………
UM NIETZSCHE LÍRICO E TERNO…PARA ALÉM DO ESTEREÓTIPO.
“Há em mim um desejo de amor que fala, por si mesmo, a linguagem do amor” ; “A minha pobreza consiste nisso: minha mão não se cansa nunca de dar” (“Zaratustra”, citado em “Ecce Homo”).
Que milagre será esse que elimina qualquer possibilidade de se encontrar pieguice nessas palavras?
“O Caminhante e sua Sombra” é seu livro mais lírico e terno; o melhor para desmanchar estereótipos quanto ao culto ao poder, violência ou a uma pretensa “imoralidade”. Talvez por isso mesmo, seja dos menos citados, especialmente por intelectuais que nunca sintonizaram com a poesia e a música que alimentaram sua filosofia trágica e afirmadora da vida. Como alcançar a ternura e o lirismo sem resgatar a infância? “Há que descer à altura dos meninos, das flores, das ervas e das mariposas…inclinando-se até elas…quem quer participar de todos os bens precisa saber tornar-se pequeno” (51-“Saber ser pequeno”). D. Ivone Lara adoraria essa passagem. E para aqueles que atacam e renegam as paixões como um mal a ser evitado: “Quem dominou suas paixões tomou posse do território mais fértil…A tarefa mais urgente é ali semear a semente de boas obras espirituais. Dominar é apenas um meio, não um fim…(caso contrário)…as ervas daninhas vão prosperar com mais ímpeto do que antes.” (53 “As paixões dominadas”). E assim, foi introduzido na filosofia o papel insubstituível da cultura em geral e das artes, em particular, no possível bem estar das sociedades. Os horrores cometidos por padres, entre os quais as paixões foram simplesmente atacadas, ilustram bem a tese. A natureza em nós sempre encontra um meio de se expressar, ainda que pelos caminhos mais tortuosos imagináveis, como uma planta que, para chegar aos raios de sol, precisa se contorcer por todos os meios. Nos casos citados, porém, o sol nunca foi alcançado. Lutaram contra um inferno na “outra vida”, mas viveram e promoveram outro inferno na única vida garantida. Paremos de tentar renegar a natureza em nós: “…nossas constantes transgressões das leis mais simples do corpo e do espírito nos conduz a uma escravidão e dependência vergonhosas…e supérfluas: de médicos, mestres e curandeiros de almas, que exercem sua pressão, ainda hoje, sobre toda a sociedade”. E assim, introduzo o último texto dessa série: “Os Transt. Mentais diretamente ligados ao ataque à natureza em nós”
……………………………………………FIM……………………………………………
*O poder europeu se consolidou “derrotando a natureza” (derrubando árvores, aterrando pântanos, eliminando a vida animal) durante o feudalismo. Por isso, caçadores e lenhadores foram tratados como heróis e cantados em prosa e verso.
**”O que destrói mais o homem do que trabalhar, refletir e sentir sem um desejo pessoal profundo—como um autômato do dever? Essa é a receita para a decadência e não menos para a idiotia…Kant é um idiota!…Aquele calamitoso fiandeiro de teias de aranha…! O instinto desnorteado em tudo e com tudo; a revolta contra a natureza; a decadência alemã- isso é Kant!“ (“O Anticristo”-11)
***É o iniciador da investigação PSICOLÓGICA sistemática e experimental. Sua maior inspiração foram os PRINCÍPIOS de Leibniz, incluindo a tomada de consciência das percepções e dos processos internos (apercepção) na sua integração. Também discutiu o problema da moral, mas isso fica para outro estudo.
……………………………………