ELEIÇÕES-IPUB: DEBATES OU “PARQUINHO TEMÁTICO!!

(De como a “organização” pode estar a serviço da mutilação da boa política)

Márcio Amaral
Direto ao ponto! Os temas determinados para os debates, pela “Comissão Eleitoral” são: ENSINO/PESQUISA, ASSISTÊNCIA E GESTÃO/ADMINISTRAÇÃO. Ou seja. estamos “proibidos” de discutir um dos temas mais candentes e importantes da atualidade na UFRJ: os Projetos de Extensão. Dizer, por ex., que o tema pode ser tratado em ENSINO e PESQUISA seria mais uma constatação da não percepção de sua importância: “entrar de carona” ou como “puxadinho” em outro tema!!! Afinal, a EXTENSÃO faz parte da BELA TRÍADE que sustenta as Universidades: Ensino, Pesquisa e…EXTENSÃO. Para se ter uma ideia dos equívocos que se podem cometer, diz uma das plataformas de candidatura: “Nossa Universidade desenvolve um amplo leque de ações de extensão”. Pois bem: se há uma vertente das atividades universitárias na qual a UFRJ é muito deficiente é exatamente em relação à EXTENSÃO! Basta atravessar a B. da Guanabara para constatar uma ligação muito mais orgânica de uma universidade com sua cidade e região. 

A situação é especialmente grave na Fac. de Medicina. Essa seria, aliás, uma das principais razões para a má avaliação nacional que tivemos a partir de critérios que envolviam ligações com as Cidades e regiões onde elas se localizam. Sofremos do que chamei: “Síndrome da Universidade do Brasil” resultando em um menosprezo inaceitável à nossa cidade. Que outra razão poderia explicar a violência que ainda estamos cometendo contra a vizinhança e a CIDADE tentando ocupar com prédios altos área que pertence à cidade e que poderiam ser usadas em atividades bem mais edificantes para nossa população, especialmente em tempo de PANDEMIAS? Que algum pequeno grupo momentaneamente no poder na Reitoria se deixe levar por essas condutas, sempre poderá acontecer. Que quase toda uma comunidade acadêmica se omita a respeito, é de uma alienação inaceitável. Os muros altos que bloqueiam visão e afastam nossas áreas livres da R. Lauro Müller são expressão desse distanciamento.

ORÇAMENTO PARTICIPATIVO: NOSSO PAPEL RECONHECIDO 

Mas os equívocos e a ignorância sobre o tema podem ser ainda maiores! O IPUB teve, recentemente, reconhecido o seu enorme papel nessa ligação com a sociedade em geral ao receber a maior parcela, dentre todas as unidades do C. Hospitalar, do ORÇAMENTO PARTICIPATIVO: projeto criado no RGS (gestão de O. Dutra-PT), implicando a distribuição de recursos públicos segundo as AÇÕES REGIONAIS de unidades de saúde e educação. Trata-se de um programa reconhecido mundialmente e que tem servido de modelo a outros países e regiões e eu também me penitencio por minha ignorância a respeito. A Mídia controlada evitou falar no assunto e nós não conseguimos nos desvencilhar de suas amarras. Trata-se de uma deficiência de difícil aceitação. É, aliás, o espírito que está norteando nossos “debates muito programadinhos”. Assim que tive aquela notícia, saí a campo para me informar, mas falhamos na não divulgação/discussão imediata do assunto. Eu que tenho—em função de atividades na UFF—conhecido mais de perto unidades regionais: HPJ e CPRJ (além do HPP, é claro) sei que a participação do IPUB é considerada como peça fundamental em praticamente todos os projetos de S. Mental em nossa região. Trata-se de tudo o que deveria servir de exemplo ao PAPEL SOCIAL DE UMA UNIVERSIDADE. Pouco importa que existam críticas ou reparos às nossas práticas; inaceitável seria que fôssemos desconhecidos ou desconsiderados. E é a discussão de tudo isso o que torna os debates mutilados.

E AS PLATAFORMAS? TÊM OS TEMAS A DEBATER!

Confesso que eu julgava serem as PLATAFORMAS uma espécie de termo de compromisso de INTENÇÕES, por parte dos candidatos para com a COMUNIDADE do IPUB. Mas, ao que tudo indica, estão sendo tratadas como mero “cumprimento de obrigação burocrática”. Considerando que todos ali registraram o que consideram haver de mais importante para o nosso funcionamento, elas deveriam ser o referencial de TEMAS a serem debatidos. Sendo assim, caberia à Comissão ORGANIZAR apenas: duração, ordem, perguntas e respostas, direito de resposta e outras. Os PESOS a serem dados a cada um dos temas e a escolha da exposição de cada candidato é de sua responsabilidade. Por que precisamos de currais e tutelas nesse procedimento? Nada menos universitário do que esse cerceamento disfarçado em organização. 

ALGUNS EQUÍVOCOS EM UMA ATA!

“Cada candidato terá direito a 10 minutos para se apresentar e falar livremente sobre o tema sorteado. Nesse momento, não será permitido tecer comentários sobre os demais candidatos” (Ata da Comissão Eleitoral, grifos meus)

1- A pergunta obrigatória, diante de qualquer PROIBIÇÃO, é: qual seria a SANÇÃO aplicada em caso de não cumprimento? Perderiam pontos em uma cadernetinha qualquer? Seriam desclassificados? Seriam acusados de estarem causando BALBÚRDIA, como disse um M. da Educação de triste memória? Colegas: falar de proibições sem previsão de SANÇÕES gera “mordidas de banguela”. Que despreparo é esse? Todos parecem querer se apresentar como “muito comportados“? Aliás, a palavra foi usada aqui na sua acepção original. Estamos todos submetidos a comportas bem estreitas! 

2- Mas a conclusão da sentença piorou as coisas: tecer comentários sobre os demais candidatos”Como assim? Até parece que faríamos comentários sobre a VIDA de cada um. Não comento sobre pessoas e suas vidas. Sou tão desinformado nesse mundo no qual as pessoas são manipuladas a partir de “informações”! Discuto plataformas e candidaturas, mas não posso me furtar a avaliar se a trajetória de uma pessoa a CAPACITA a levar adiante o que escreveu. Ou alguém acha que propostas se realizam por elas mesmas? Como se diz, o papel aceita tudo; levar o escrito à vida é um pouco mais difícil. Que aversão é essa à boa política?3- Chega a ser engraçado o uso ali da expressão “falar livremente”! Soa a confissão: “agora que já cortamos suas asas, podem brincar aí livremente”. Não é preciso ser muito versado nas coisas do inconsciente para sentir o que está subjacente à sentença. Paira no ar e entre nós uma “censura branca”; aquela que inibe seriamente, sem proibir de forma explícita.

Por fim, diria aos mais jovens e ingênuos (que não perceberam os movimentos e as intenções): sempre tenho a esperança de que descobrirão o prazer da AÇÃO POLÍTICA (arte de resolver coletivamente os problemas da POLIS). Já para aqueles que estão, há muitas décadas, na luta política será difícil explicar essa estranha aversão à boa política

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