A SEXUALIDADE NA FILOSOFIA: UMA PSICOLOGIA “PARA ALÉM DA RAZÃO”!-IV
(Pós MONTAIGNE: CENSURA, Idealismo Alemão e a falsa “Razão Pura”)

NOTA: Esta série poderia ser chamada “Bases Filosóficas da PSICOLOGIA e PSICANÁLISE”, pois tenta estudar tudo o que preparou o enorme “salto freudiano”, a partir do seu trabalho centrado na sexualidade (tão evitada até então). Entretanto, o material revisitado nos “Ensaios” de Michel de MONTAIGNE (1533-96) é tão vasto e IMPORTANTE; tantas conclusões posteriores pela psicologia são ali antecipadas, que vão merecer um capítulo inteiro. E com que alegria retornei ao autor que me provocou um primeiro ALUMBRAMENTO em filosofia! Lera já muitos outros pensadores, mas aquele atingimento profundo não ocorrera (em filosofia). O tanto de poesia que encontrei em cada um dos seus Ensaios e a pertinência das citações foram elementos essenciais nessa conquista do meu interesse. Nunca um pensador se valeu tanto da POESIA e isso, por si só, dá já a indicação do tanto de vida amorosa e sexual que há em sua obra. Só agora consegui entender o CORTE que representou na história da filosofia e o SILÊNCIO que se fez em torno dela. Disse ele dos que condenam prazeres: “São fanáticos. Pensam honrar a natureza modificando-a; jactam-se do auto desprezo tentando se fazerem melhores, mas pioram ainda mais. Que animal monstruosos é o homem! Inspira horror a si mesmo! Pesam-lhe os prazeres e buscam o mal sem cessar” (“A propósito de Virgílio”). Era modernidade demais, por isso sua obra foi tornada algo à parte a partir de Descartes, talvez o mais antipoético dos pensadores. No “império da geometria”, que estava a caminho, a poesia se tornou peça de deboche: “…a poesia tem delicadezas e doçuras muito encantadoras” (Descartes). E como perdemos todos! É o que tentarei demonstrar.
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“Em vão lutamos contra a natureza…Que mal fez aos homens o ato sexual—natural, necessário e justo—para que não ousemos falar dele sem corar, a ponto de o excluir das conversações mais sérias e honestas?…cercamos o ato de silêncio e deste não o tiramos sequer para acusá-lo e condená-lo, só o criticando com perífrases e metáforas. E que benefício se confere a esse “criminoso” (o sexo) quando não se pode sequer aludir ao “crime”! Graças à severidade da pena, ele continua livre…os livros proibidos são os que mais se leem…: “Quem evita Vênus e dela foge sem cessar/Peca como os que se deixam por ela arrastar” (versos de Plutarco citados por M. de MONTAIGNE em “A Propósito de Virgílio”- OS PENSADORES, Abril Cultural).
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DEFENDER A NATUREZA? COMECEMOS POR SUA CONQUISTA EM NÓS!
O segundo texto dessa série termina com 4 perguntas para introduzir a discussão da sexualidade, levada a extremos por Freud:
1- Por que o processo civilizatório implicou a quase clivagem entre as duas instâncias: consciente e inconsciente?
2- Por que era necessário o esforço de repudiar, a todo custo, a natureza e suas expressões em nós?
Sem a expectativa de responder aos porquês, podemos afirmar que esse ataque à natureza dirigiu seu foco à sua marca indelével: a tão vilipendiada—especialmente por I. Kant e seguidores*—sexualidade. Uma outra pergunta ficará no ar: era inevitável e necessária essa clivagem em nossa mente? Uma coisa é certa: é hora de a humanidade saltar por sobre esse abismo, mas isso não é fácil, dado o medo que envolve o tema e o quanto é utilizado para o controle, especialmente dos jovens. Nesse sentido, o primeiro equívoco é achar que os avanços consistentes na aceitação da sexualidade—suas manifestações e das pessoas—passa necessariamente pela apologia do OPOSTO: a grosseria e a banalização. O resultado costuma ser contrário ao aparentemente desejado, pois atiramos a maioria no FALSO DILEMA que reproduz o CÉU X INFERNO: não reparando nas inúmeras possiblidades entre os extremos e atiradas à polarização artificial (obrigando-as a escolher), simplesmente PARALISAM. Talvez tenha acontecido exatamente isso com as ideias de Montaigne: “…não deixará a natureza de seguir o seu caminho. Se dotou esse órgão (o pênis) de algum privilégio especial, teve razões para isso…perpetuar a imortalidade dos mortais, obra divina, na opinião de Sócrates. É, ele mesmo, amor, desejo de imortalidade e demônio imortal (imoral?**). (ENSAIO: “A Força da Imaginação”). A verdade é que ninguém seguiu Montaigne na dura empreitada, até que Nietzsche (seu grande admirador) retomou o tema 300 anos depois; não de forma tão direta e crua.
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SEXUALIDADE INFANTIL: A “NEVERLAND” DE MONTAIGNE: O MITO DE JANO?
“Pareceria milagre e infelicidade confessar a que ponto era jovem quando, pela primeira vez, me vi escravizado às leis do amor…não estava, nem de longe, na idade da razão. Posso comparar o meu caso ao de Quartillaque não se lembrava da sua virgindade”.(Montaigne)

Um dia, fiz uma associação que me pareceu resolver a enigmática e impactante expressão tão apreciada por M. Jackson (não por acaso, como sempre): “Terra do Nunca…Mais”; um mundo que deixamos para trás, a infância perdida (ou não, essa é a grande questão…da Psicologia, inclusive). Somente com o complemento a sentença se esclarece plenamente, até em sua inspiração no PETER PAN que se recusa à “passagem”. Já voltando os olhos para a frente, nosso maior desafio seria a comunhão permanente com os SONHOS da infância (perdidos ou não, de novo a questão). Imagino que os maiores esforços de toda a obra de Montaigne foram em torno desse resgate. Vejo na sentença acima uma confissão do quanto se sentiu “atropelado”, pela própria natureza e pelas pessoas à sua volta. O não se lembrar da própria “virgindade” abre como que um abismo entre alguém e sua infância; há que criar pontes até ela, uma função das psicoterapias, inclusive. Palavras como: “infelicidade”, “confissão”, “escravizado” carregam consigo um drama que se configura plenamente quando Montaigne diz “o meu caso”. E o desafio permanece: como promover esse “trânsito livre” entre a infância e a “toda vida”? Seria essa a CHAVE DE JANO no mito? E esse desafio nunca foi tão poeticamente expresso como por M. Bandeira em VERSOS DE NATAL (1940)! Falando a um “Espelho, amigo verdadeiro” que lhe mostrava suas rugas e seus “olhos míopes e cansados”. Terminando: “…Mas se fosses mágico…/Descobririas o menino que sustenta esse homem/O menino que não quer morrer,/Que não morrerá senão comigo/O menino que todos os anos na véspera do Natal/Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta***. Já o menino Montaigne provavelmente foi usado em situações que hoje talvez fossem classificadas como crime. “Adolescente…Cupido dançava ao redor de mim” (Horácio, citado por Montaigne).
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PSICOTERAPIA…FALTAVA A “CHAVE DE JANO”: A TRANSFERÊNCIA
“…impus-me a obrigação de ousar dizer tudo o que ouso fazer e lamento que nem todo pensamento seja passível de exteriorização. O pior dos meus atos…não me parece tão feio que não possa ser confessado, pois mais covardia há em não os dizer…Disfarçamos nossos vícios da nossa própria consciência”.
Como é natural, tudo começou por um esforço de auto análise. Mas Montaigne foi bem além e, sendo reconhecido por sua comunidade como um sábio (chegou a ser prefeito de sua região), várias situações de desequilíbrio mental eram-lhe encaminhadas. Em uma delas ele se alonga, investiga e chega a conclusões que hoje valorizamos muito. Faltava-lhe, porém, a “CHAVE DE JANO”: a TRANSFERÊNCIA. Sem ela não havia como reviver situações e relacionamentos. Mas isso teria que esperar por mais de 300 anos. Vejam o ENSAIO “Da Diversão”: “Aos bons médicos cabe conversar de maneira agradável e leve” (bom cuidado inicial e para quem desconhece a TRANSFERÊNCIA, pois na continuação pode ser inevitável conviver com maus sentimentos) “…Nenhum doutor carrancudo jamais conseguiu resultado apreciável”! Feita a introdução, passou à abordagem de uma Sra “desequilibrada”: “De início, devemos lhes compreender as queixas e aprová-las até certo ponto”. Outro bom cuidado. Hoje diríamos “ACOLHER” valorizando suas razões. “Ataquei o mal de frente…errei e não a conseguia persuadir. Por isso, não mais tentei curá-la com razões lógicas…Não segui o conselho de Epicuro: desviar o pensamento das coisas tristes para distração (seria infantil)…Desviei para assuntos afins e (na medida em que a confiança dela em mim se ampliava), para outros sem relação com sua desgraça. E assim, afastei-a…de seus pensamentos melancólicos, conduzindo-a para uma atmosfera de serenidade”. Como podem ver, predominaram, na intervenção: 1- a humildade de quem vai aprendendo no caminho; 2- a humanidade de quem se interessa por tudo o que é humano. Era pouco para gerar alguma consistência na melhora, mas era fundamental e essencial. Sem aqueles cuidados, nenhuma técnica haveria ou haverá de funcionar. O simples e verdadeiro acolhimento, com compreensão e o encontro de interesses comuns, com alguém a quem ela tanto respeitava, atuaram fortemente. Há nisso um gérmen da TRANSFERÊNCIA, mas a capacidade de com ela trabalhar seria bem mais demorado e teria que esperar por muito tempo.
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*Hegel tentou desclassificar Montaigne chamando sua obra de “antropologia” como uma “coisa menor” (que também não valorizava muito, pelo visto). Era uma confissão de como o IDEALISMO ALEMÃO encarava a relação do ser humano com o que chamavam filosofia; nada mais do que um instrumento do Estado/Igreja no controle das nossas “animalidades” disfarçado sob “imperativos categóricos” e procura por “ideais” por uma falsa “Razão pura”. Seus representantes foram mestres consumados na capacidade de metamorfosear suas próprias insuficiências em “valores universais”. Produziram uma “Filosofia de Colégio Interno”.
**A palavra “imoral” conferiria à sentença uma profundidade inaudita, enquanto “imortal”, além de redundante (no contexto) a amesquinha. Há que verificar. Até por haver em nós impulsos totalmente independentes da moral (imorais) na sua origem, é necessário desenvolvimento da instância assim chamada (moral) na vida social: “Quem extirpasse o gérmen dos maus sentimentos no coração dos homens destruiria neles as condições essenciais para a vida” (Montaigne: “Do Útil e do Honesto”). É o que vemos em muitos casos de suicídio, especialmente entre jovens: “Esses suicidas que se atiram de lugares altos sempre me lembram anjos que perderam as asas” (M. Quintana).
***Antes do “Papai Noel” louvava-se uma fada e era costume deixar os “sapatinhos na janela ou porta do quintal”. M. Bandeira expressa (em outro lugar) seu inconformismo com a “invasão” de nossos valores e cultura.