D. SHEEHAN: TRATANDO O SUICÍDIO COMO UMA BANALIDADE!

(O mentor de psiquiatras brasileiros e suas afirmações sem lastro ou comprovação)

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Se há um bom PRINCÍPIO em pesquisa é o que obriga ao esforço de isolar variáveis para pesquisar o peso de um fator qualquer. Em relação ao suicídio, e o possível peso da genética na sua determinação, a maior dificuldade, por óbvio, é a sua separação em relação ao ambiente: quem compartilha genética costuma compartilhar ambiente. Um grupo dinamarquês fez um esforço hercúleo nesse sentido, a partir da ADOÇÃO na primeira infância em muitas décadas* (ver Kaplan & Saddock oitava Edição). Mesmo assim, e apesar de alguns achados fortemente sugestivos para um papel da genética, consideraram seu próprio trabalho inconclusivo. Trata-se de um rigor que o “SUPERSTAR” desconhece ou deixou de lado: em um “salto quase mortal” concluiu pelo papel determinante da genética. E tanta gente o levou a sério! Para se ter uma ideia do nível dessa apresentação, há ali uma afirmação que, a ser verdadeira, atiraria os bons psiquiatras a uma situação muito delicada: “Como assim?! Vocês prescrevem o C. de Lítio há décadas e até hoje não perceberam sua ‘Ação Antissuicida’, específica e quase espetacular?”. Também a afirmação de que, diante de uma “depressão bipolar” (associada a risco de suicídio) o uso de antidepressivos poderia “piorar as coisas”, definitivamente não se aplicaria à situação apresentada**. Abraçou uma crença não muito fundamentada; generalizou sua aplicação (ignorando que a CLÍNICA é eminentemente INDIVIDUAL) e privou o paciente do tratamento da depressão, pois o uso dos dois grupos de substâncias poderia se dar com monitoramento. Afinal, não disse ele mesmo: os antidepressivos demoram cerca de 4 semanas para atuar?

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DISCUTINDO A INTERVENÇÃO ESPECÍFICA NO CASO!

Deixando de lado o gestual um tanto caricatural, o que salta aos olhos é a banalização com que o “soi disant” clínico teria tratado uma situação de enorme risco. Falou como se a comunicação fosse, por ex., “estou com uma unha encravada” e a intervenção pudesse ser cirúrgica e banal (com todo o respeito aos cirurgiões). Diante da situação, e sua abordagem rasa, haveria um alto risco de não haver próximas consultas, seja pela percepção do paciente de que aquela pessoa não é capaz de o ajudar, seja pela perigosa constatação de que “ninguém pode mesmo me ajudar!”. A conduta precisava ser completamente diferente: estabelecer redes de proteção, contactando parentes e amigos (depois de comunicar ao paciente, é claro); discutir a necessidade ou não de uma internação; evitar fornecer ao paciente os instrumentos para sua própria morte. Cuidados como o controle da administração seriam também obrigatórios, além da investigação quanto a se o paciente lida com armas, se as tem em casa e se mora em locais altos. Dirão alguns: “AH! Mas é só um vídeo!”. Desculpem-me, mas quem lida com o SUICÍDIO e seu risco não tem o direito de ser irresponsável. É assim que a BANALIZAÇÃO começa e se impõe.

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INVENTANDO UM PACIENTE IMPROVÁVEL (mãozinhas abanando)

Findas as 4 semanas de ajuste do Lítio (considerando que o paciente tenha sobrevivido), ele retorna dizendo continuar mal da depressão, mas que as ideias de suicídio cessaram. CONCLUSÃO temerária do apresentador: “O LÍTIO é um elemento antissuicida específico”. Minha interpretação de clínico é bem outra. Os pacientes são os últimos a reconhecer uma melhora e por várias razões: medo das cobranças que retornarão; medo de cair de volta na “roda viva” em que viviam; valorização maior do que está ainda mal nele mesmo e outras. Mas a linguagem corporal não mente e é nesse momento que o clínico, que vê para além da superfície, perceberá coisas que o clínico SEM SEMIOLOGIA perderá. É quando cometem o pior dos erros: abandonar uma terapêutica que estava em bom caminho. Há que evitar conclusões precipitadas. Mais para o final das consultas, o paciente tenderá a admitir que está um pouco melhor e eu afirmo: na nossa clínica, uma pequena melhora é grande melhora. Importa mais para onde a situação aponta (e se move) do que o PONTO onde estamos em um momento qualquer. Em nossa atividade não há espetáculo possível. Deixemos de lado as mãozinhas abanando do apresentador, mais adequadas a um instrumento de percussão (ausente) do que à representação das oscilações de humor. E vejam que, a rigor, ele teria conseguido uma “estabilização da DEPRESSÃO”, um objetivo muito estranho.

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CONFUNDINDO “DIFERENTE” COM “OPOSTO” (bracinhos em X)

“Constatada” a ação “antissuicida” obtida com o Lítio (sic), o apresentador teria feito outra “constatação” que parece violentar sua própria língua: aquela ação seria OPOSTA à ação ANTIDEPRESSIVA. Ouviram bem? Parece que, para o efeito dramático, dizer somente: “diferente”, “totalmente diferente”, “por outras vias” e outras expressões na rica língua inglesa, não era suficiente. De minha parte também considero—junto com Aron Beck e seus inventários nos quais estuda a relação entre as 3 dimensões—que a “via” que vai aproximando uma pessoa do SUICÍDIO passa muito mais pela DESESPERANÇA do que pela DEPRESSÃO. Esse é, aliás, meu argumento para reforçar a ideia de que o estudo do SUICÍDIO não pode se limitar à clínica psiquiátrica. Um crente fervoroso em Deus, por ex. e por mais que se sinta deprimido, dificilmente dará fim à própria vida. Diga-se de passagem, não apenas por temer punições em outro mundo, mas por considerar aquela uma provação e manter a ESPERANÇA de que será, em algum momento, “resgatado” e protegido. Já os “bracinhos cruzados” do apresentador…talvez sejam o X da questão.

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EUREKA…EKA! UM SALTO MORTAL…NO VAZIO (dedinhos estalando)

E então, depois de sugerir (sem dizer claramente) haver uma espécie de “Transtorno Suicida” (certamente mais um “espectro” da moda) e falar em drogas específicas para 2 grupos “opostos” (risco de suicídio X depressão), vem o “SALTO KETAMINA”, a droga espetacular que melhora a depressão em uma hora e suprime o risco de suicídio em outras tantas etc. (estalo de dedos). Lembrei-me até do entusiasmo de Freud (Cartas a Fliess) com a cocaína, até se dar conta da inconsistência dos resultados e suas consequências. A cetamina já está por aí há mais de 10 anos. Tem ação comprovada na produção de analgesia e utilidade na medicina veterinária. Sua possível ação antidepressiva não se firmou. A transposição de sua ação nos receptores NMDA para as dores de natureza moral e psicológica não foi estabelecida. Já a ação dos opiáceos nesse sentido é bem conhecida e…DESASTROSA. Guardemo-nos contra os aventureiros e que nossas Associações encontrem melhores mentores. Há outros vídeos que estudarei depois.

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*Encontraram 269 suicidas entre milhares de adotados no séc. passado. Estudando muitas centenas de seus parentes em primeiro grau, encontraram 12 suicidas. Para outros 269 adotados NÃO suicidas (pareados para diversas variáveis) encontraram 2 suicidas entre o mesmo número de seus parentesem primeiro grau. Para os que defendem a tese da genética como fator determinante, difícil seria explicar que “mutação” teria feito as taxas da Coreia do Sul (só no Sul) passarem de 8/100.000/ano (1980) para mais de 30/100.000/ano nos dias atuais. Foi um salto paralelo ao “salto do Tigre asiático” em função de um modelo de desenvolvimento que atropela a cultura e as pessoas.

**Há uma crença (um tanto sem lastro) em que a melhora da psicomotricidade de deprimidos, antes da melhora do estado de humor, poderia elevar seu risco de autoextermínio. Não é algo a desprezar, mas também não suficiente para a não prescrição de antidepressivos. 

FIM

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