​S. FREUD: UMA “PSICOPATOLOGIA*” DA VIDA COTIDIANA…?!-II

(Reunião da SEMIOLOGIA para o inconsciente: Todos os caminhos levando à sexualidade)

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“Para ler na alma (na mente)…somente com muito trabalho, pesquisa e voltando a atenção para nós mesmos (apercepção). Os sentidos e as situações oferecem as oportunidades e a sequência (coerência entre elas) das experiências pode servir como confirmação à razão”, GW Leibniz, “Prefácio aos Novos Ensaios”-1704 (antecipando a possibilidade da investigação, que teria que esperar 2 séculos por instrumento efetivo).

Freud

Quando das primeiras publicações de Freud (juntamente com J. Breuer e até 1895), sequer havia uma SEMIOLOGIA** confiável e convincente para investigar o funcionamento mental para além das aparências e do controle da RAZÃO. Mesmo assim, ele mesmo e vários outros autores, ousaram publicar textos cujos títulos: 

1- Reproduziam ou sugeriam nomes para transtornos que não deixaram rastro para além da curiosidade e da história: “neuroses de defesa”, “neuropsicoses de defesa”, “neurastenia”, “neuroses de angústia”, “psicoses alucinatórias” e outras. 
2- Apresentavam considerações sobre etiologia sem fundamentação: “A Etiologia da Histeria”,”Gênese dos Sintomas Histéricos”“Surgimento e etiologia das neuroses de angústia”, “Herança e Etiologia das Neuroses”“Etiologia específica da histeria”.
3- Tentavam até esboçar uma TEORIA: “Primeiras observações para uma teoria das neuroses de angústia”.

Foi uma TEMERIDADE! Mas, sem esse tipo de coragem, até para errar, a ciência não teria avançado. Vide os alquimistas. De estranhar era que desrespeitassem o mínimo exigido no processo de formação de uma ciência qualquer e suas fases obrigatórias, especialmente para atividades (como a nossa) nas quais as manifestações não são diretamente palpáveis (literalmente, em oposição à anatomia) e onde alguma dose de subjetividade na avaliação é e será obrigatória.

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FASES NATURAIS NA FORMAÇÃO DE UMA CIÊNCIA

Por vezes esquecemos de que as mentes científicas antecedem em muito as CIÊNCIAS mais específicas que elas mesmas acabam por criar. Por isso prefiro pensar mais em pensamentos e atitudes científicas, do que ficar discutindo se certas atividades são ou não científicas. Se uma atividade qualquer é exercida por alguém dotado daquela mentalidade, o resultado de seu trabalho (e/ou seguidores) haverá de resultar em uma ciência propriamente dita. Sendo assim:

1- Tudo começa pela observação de sinais, mais ou menos objetivamente, cuja reunião, em um todo coerente, é o próximo e natural passo, sempre em busca de correlações entre eles. 
2- Continua através do desenvolvimento de instrumentos de investigação (semiologia) com a expectativa de que resultem em uma coerência cada vez mais convincente. No nosso caso, há também os sintomas: referidos e inferidos a partir de dados mais ou menos confiáveis. Para se ter uma ideia das dificuldades na nossa área, essa semiologia pode ser chamada de “armada”, quando utiliza testes e instrumentos concretos e “desarmada”, quando se dá somente a partir da investigação verbal. Na avaliação da inteligência e da memória aplicamos os dois tipos.
3- O próximo passo costuma ser a formulação de uma TEORIA—ao que tudo indica, derivada de “Theo”; com um “Deus” na sua origem atribuindo unidade aos achados—que consiga juntar os dados em um todo coerente, autorizando inferências etiológicas.
4- O resultado de tudo isso, no nosso caso, costuma criar uma base confiável para justificar intervenções terapêuticas efetivas e seguras que, por sua vez, seguem confirmando ou abalando as impressões iniciais.

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“ESCAVANDO” O INCONSCIENTE: SEXUALIDADE POR TODOS OS LADOS!

Ninguém pode assegurar, através somente da razão, para onde foram nossas apercepções passadas e esquecidas (inclusive dos sentimentos e impulsos)…Além disso, por que seria necessário que tudo o que está em nós decorra de percepções externas e que nada possa ser desenterrado de dentro de nós mesmos?… Podemos alcançar muito de pensamentos, desde que estejamos dispostos a nela (na alma ou mente) escavar.  (GW LEIBNIZ, Idem: o verbo déterrer***, desenterrar, escavar em francês no original dispensa argumentos).

:  W. WUNDT (1832-1920)

Freud se refere a W. WUNDT (seguidor de Leibniz, mentor de Kraepelin e tido como o “Pai da Psicologia”) em vários momentos de sua obra inicial, mas a verdade é que, sem ter a sexualidade como uma espécie de Leitmotiv” objetivo de toda a investigação, a psicologia não avançaria muito para além da curiosidade. A própria hipnose, tratada como curiosidade, logo perderia boa parte do interesse. A ideia de um inconsciente, que atuava com uma certa independência, era já “moeda corrente” na Europa. Algumas perguntas, entretanto, precisavam de resposta: 
1- Por que o processo civilizatório implicou a quase clivagem entre as duas instâncias: consc. e inc.?
2- Por que era necessário repudiar, a todo custo, a natureza e suas expressões em nós. 
3- Por que precisamos imaginar uma “Criação” que teria gerado seres à parte e à “imagem e semelhança” de um Deus, repudiando nosso vínculo inquebrável com o mundo animal e as assim chamadas “animalidades”?
4- Qual a maior expressão dessa “animalidade” e da NATUREZA em nós?

Resposta: a SEXUALIDADE. CONCLUSÃO: qualquer investigação consequente do inconsciente havia que partir da sexualidade e a ela retornar.

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Muito significativamente, no seu “A Interpretação dos Sonhos” (1901) Freud refere os gritos de um paciente: “Natureza…Natureza!”. Seus parentes o atribuíam à leitura que o paciente fizera do Ensaio de Goethe que tem esse nome. Para Freud, porém: “Parecia mais plausível dar à exclamação o sentido sexual conhecido por todos…O fato do infeliz ter, posteriormente, mutilado seus órgãos genitais pareceu me dar razão”. Quem se der ao trabalho de ler os primeiros trabalhos de Freud verá que a investigação da SEXUALIDADE foi bem mais do que um mero “achado”, mas a inspiração de todo o processo. As referências à sua expressão e/ou repressão são inúmeras por ali.

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*Trata-se de um mau uso do conceito. Para tratar como psicopatologia uma variação qualquer, no comportamento de alguém, é necessária a caracterização de um PREJUÍZO marcante para aquele que a apresenta. Como “licença poética” ou força de expressão funcionou e muito. Somente quem trata a RAZÃO como o ideal a alcançar e qualquer escape dela como doentio poderia tratar as manifestações ali tratadas como patológica. Não é o caso de Freud.  
**Há um significativo “sincronismo” entre esses trabalhos e os de E. Kraepelin, embora este tivesse já disponível uma semiologia que ainda passaria por muitos aperfeiçoamentos. Seu maior esforço foi, porém, conquistar autonomia para a PSIQUIATRIA o que só conseguiu a partir de PESQUISAS envolvendo a EVOLUÇÃO dos pacientes e se apoiando na PSICOLOGIA. 
***O termo é também referido por Freud na citação de um certo Struempell: “…o sonho extrai da profundidade em que foram enterradas (por acontecimentos posteriores) as lembranças da juventude, intactas e com toda seu frescor original: imagens e pessoas”. Um dia a PSICOLOGIA vai render a GW LEIBNIZ a homenagem que merece, mas, para isso, há que se libertar do cartesianismo francês que assola a intelectualidade brasileira. 

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