LEIBNIZ ENTERRARA ESPECULAÇÕES VAZIAS; KANT AS RESSUSCITOU!

(Chamou-a “Ciência da Razão Pura”: ÍCARO perdendo as asas antes de decolar)

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“…os resumos de metafísica e outros livros dessa espécie…só ensinam palavras. Dizer que a metafísica é a ciência do ser (grifo original) em geral…que os princípios do ser são a essência e a existência; que as afecções são primitivas…ou derivativas…dar apenas noções vagas e distinções de palavras, é abusar do termo ciência (G.W. LEIBNIZ, “Novos Ensaios-Livro IV-Cap. VII “As Proposições Frívolas”, Coleção “Os Pensadores”, Abril Cultural, 1974)*.

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“…os princípios (alusão a Leibniz)…têm como resultado…não uma ampliação, mas uma restrição ao uso de nossa razão”.** (grifos meus), I. KANT “CRÍTICA…”

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G. W. LEIBNIZ, 1646-1716

GW Leibniz não defendeu investigações METAFÍSICAS em suas obras da maturidade. Seu esforço maior foi o de delimitar campos, sem estabelecer limites rígidos. Kant tem toda razão na afirmação acima. Aplicar restrições segundo critérios é conduta típica de mentes científicas como a de Leibniz. Tendo formulado a distinção entre as VERDADES DE RAZÃO (sem necessidade de demonstração empírica) e as “DE FATO” (que deles precisam), humildemente concluiu: perante as primeiras, restava à Razão aceitação e respeito. Geravam elas perguntas irrespondíveis (quem somos? qual nossa origem? e do Universo?) que se desdobrariam em perguntas respondíveis, especialmente através da investigação científica. Caberia à filosofia apontar PRINCÍPIOS norteadores. Assim, na sua obra, não há caminhos para a METAFÍSICA se tornar uma ciência. Implicava, contrariamente, a certeza de limites à apreensão da ORIGEM das Coisas, permanentemente desafiados por novas tecnologias, mas eternamente renovados. Haveria sempre algo para além dos fenômenos: DEUS, na opinião do filósofo. Mas, a rigor, Leibniz representava um perigo para a própria noção de DEUS. Como disse CLARKE (defensor de Newton) ao criticar a “Harmonia Universal” (Leibniz): “…sem a intervenção permanente de Deus…introduz-se o materialismo… tendendo a banir…o governo de Deus…Um reino…sem intervenção do rei seria apenas nominal” (“Correspondência” com LEIBNIZ, IDEM). Tão inglês, tão reducionista! Sim, Leibniz abriu o caminho para a não necessidade de Deus; estaria apenas na ORIGEM, segundo o princípio da razão suficiente, que não precisamos discutir aqui.

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E ENTÃO, KANT INVENTOU A “CIÊNCIA DA RAZÃO PURA”

“Como é possível a Metafísica como ciência? …A crítica da Razão conduz necessariamente à ciência…(mas) somente da Razão mesma, isto é, dos problemas que surgem inteiramente do seu próprio meio e não lhe são propostos pela natureza das coisas” (Crítica”). Apenas uma espécie de “parquinho enKantado” só para “joguinhos da razão”.

A pergunta que se impõe é: como foi possível levar a sério a possibilidade de uma “RAZÃO PURA”? Só mesmo o “IDEALISMO ALEMÃO”; religião fantasiada de filosofia! Teria a RAZÃO nos sido dada, ao arrepio da EVOLUÇÃO e da origem ANIMAL? O próprio Kant chega a dizer que sua razão é pura e “livre de animalidades”. Hoje, soa como um CONTO DE FADAS: “Era uma vez, em Könisberg”! Mas os absurdos kantianos vão além, atingindo um “autoerotismo “racional”. Em seus PROLEGÔMENOS diz ele haver um vácuo na alma destinado apenas “à razão pura e especulativa”; exigindo “algo que a satisfaça por si mesma e não para agir…no interesse das inclinações”. Leiam-se: as “animalidades”—sexo e reprodução, por ex.—das quais a “Razão Pura” precisaria se livrar, gerando “…uma meditação que se ocupe com o âmbito da razão existente por ela mesma“. Como pode alguém duvidar de que, contrariamente, a razão se foi forjando no tempo, tentando resolver problemas que a “natureza das coisas” impunha? Não nos livramos de nossa ação no mundo*** (Leibniz). Uma investigação da RAZÃO é necessária, mas em sua relação com a VIDA. Nunca a partir de uma inventada “pureza”, um tanto onanista. Aliás, estou convencido de que essas “purezas propaladas” são indicadoras da sensação de “sujeira moral” com a qual a própria pessoa não consegue lidar.  

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JÁ PARA LEIBNIZ: A RAZÃO BUSCANDO ORGANIZAÇÃO E SENTIDO NO MUNDO

…a origem das ações, para uma alma ou mente, é…relembrada (confusamente) na relação com seu estado precedente e é por ele afetado ..ocorre uma infinidade de modificações em uma mente… por conta das inúmeras representações (simultâneas) de coisas externas” (Leibniz, “Comments on Bayle Diccionary”, in G. W. LEIBNIZ, Philosophical Texts, OXFORD UNIVERSITY PRESS, 1998).

Chega a ser vergonhosa a ignorância sobre a obra desse pensador, especialmente entre os alemães. Ficaram como que presos ao seu otimismo um tanto ingênuo e não conseguiram ver os caminhos por ele abertos à ciência em geral e à psicologia em particular. Enquanto Kant fazia a apologia de uma falsa “RAZÃO PURA”, Leibniz****—antecipado por Spinoza, é verdade—investigava sua relação com as experiências objetivas: “…ao lado das percepções, das quais a mente se recorda, há inúmeras outras confusas, das quais a mente não consegue se desvencilhar. É através delas que representamos corpos fora de nós e desenvolvemos pensamentos distintos em relação ao que antecede” (Idem). E continua o pensador: quem estivesse comendo (com prazer) um melão, por exemplo, e fosse picado por um inseto (dor) poderia fazer uma associação INCONSCIENTE entre os dois: “…A alma passa, por vezes, de um para outro sem saber como e involuntariamente, modificando-se contra a sua própria vontade” (“Novos Ensaios”)Por isso afirmo: LEIBNIZ é o iniciador da INVESTIGAÇÃO PSICOLÓGICA propriamente dita. Já Kant começou por uma violência contra seu objeto de estudo: “lavou e purificou a razão” como quem troca a fralda de um neném para afastá-lo do “mundo impuro”.

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KANT: TENTANDO SALVAR A TEOLOGIA, QUEM DIRIA?

Por fim, a derradeira confissão da sua intenção com o palavrório: “…o serviço por ela (da “Ciência da Razão Pura”) prestado à teologia não deve ser subestimado;  libertou-a do juízo da especulação dogmática …colocou-a em segurança contra seus ataques”. Assim, a “Ciência” criada por ele seria: “…capaz de dar nova vida e fecundidade a um ramo importante, hoje morto, dos conhecimentos humanos…(mas há que ter) cautela para não quebrar ou destruir…um enxerto***** ainda tenro” (PROLEGÔMENOS). Leibniz era mesmo uma ameaça às especulações vazias que tentara enterrar. Na continuação, Kant se apresenta como um criador de religião: “Porque a ciência em questão é de espécie tão particular que pode, de um só golpe, ser levada à completude…àquele estado que não admite progresso nem descobertas posteriores, nem pode ser mudada…” (Idem). Difícil imaginar algo tão contrário ao espírito e práticas científicas! Fala de DOGMAS não de ciência. Dentre as “vantagens” da “nova ciência” estaria: ser inabalável pelos acontecimentos da vida “…uma vantagem que nenhuma outra ciência possui, nem pode possuir, pois nenhuma diz respeito a um conhecimento tão inteiramente isolado, tão independente de outros e tão imune a misturas”. Lembram-se do “parquinho enKantado”? Apenas mais um “Reformador religioso” escondido sob linguagem pseudocientífica! E termina com mais um ataque sutil a LEIBNIZ (tratado como “o dogmático”): “…ao chamar em sua ajuda a dogmática especulativa, a metafísica armou seus inimigos contra si mesma“** (“Prolegômenos”, Coleção “Os Pensadores”). 

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*Como é atual! Trata-se de resposta, adiantada às proposições frívolas dos Existencialistas, último suspiro dos jogos de palavras Kantianos, Heiddeger à frente.

**Quando Kant se refere a “Princípios” “dogmáticos”, é de Leibniz que fala. Chega a elogiar um filósofo, que tivera Leibniz como mentor, com o claro propósito de rebaixar LEIBNIZ: “…o famoso C. Wolff, o maior de todos os filósofos dogmáticos…” (“Crítica”). Leibniz é o pano de fundo da obra kantiana: “A Sombra do Samurai”.

***Já repararam como a simples IDEIA de ter um filho começa a modificar tudo em uma mulher, mas não somente? A criança sequer foi concebida, mas sua IDEIA já está atuando sobre o mundo.

****Uma discussão sobre as “IDEIAS” de Platão se impõe, mas ficará para outra oportunidade. Seriam reminiscências de um estado IDEAL anterior, do qual como que teríamos “descido”, mas poderíamos nos reaproximar através da Razão.

*****Vou verificar o termo alemão utilizado, pois o uso dessa palavra sugere confissão de artifício, algo que Freud, muito depois, denominou “ato falho”.

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