DESCARTES: SEU GEOMETRISMO E O “HOMEM-BONECO DE ENGONÇO”!
(Alguns absurdos que a filosofia produziu; com pompa e até rasteiros!)
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…Somos incitados a chorar quando os pulmões estão cheios de sangue e a suspirar quando se acham vazios; quando uma imaginação de esperança ou alegria abre o orifício da artéria venosa que a tristeza estreitara…” (Descartes, “As Paixões da Alma”). A coleção “Os Pensadores” (Abril Cultural, 1974) apresenta suas principais obras em tradução confiável.
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Muitas afirmações do pensador haverão de surpreender. Erros são absolutamente naturais podendo até ter criatividade. É através deles que novos caminhos (“ensaio e erro”) se abrem para o conhecimento. Difícil de aceitar são a arrogância e a certeza com que R. Descartes (1596-1650) enunciou os seus. E como amesquinham os seres humanos: nossos sentimentos, nosso corpo e a vida em geral! Mas são apenas uma consequência inevitável da REDUÇÃO da natureza e seus fenômenos à capacidade de apreensão pela razão* e isso está longe de ter sido superado até hoje. Os absurdos são tantos, que alguns julgarão haver aqui um esforço de ridicularização, mas o objetivo é bem outro: demonstrar os maiores perigos de um geometrismo que violentava a vida e precisava ser superado. Não por acaso, por diversas vezes, usa ele a palavra “composto” para se referir aos seres humanos: “Pois é somente ao espírito, e não ao composto de espírito e corpo que compete conhecer a verdade das coisas”; “…a natureza do homem, enquanto composto do espírito e do corpo” (Sexta Meditação). As palavras têm vida própria e não apenas na poesia. Aliás, a própria poesia, as artes e a noção do BELO comprovam a impossibilidade da razão fria tudo abarcar. Ademais, “compostos” são bonecos de engonço ou coisa pior. O que dizer dos “mecanismos” para o riso por ele propostos?
“O riso consiste em que o sangue que procede da cavidade direita do coração…infla de súbito…os pulmões fazendo com que o ar…seja obrigado a sair com impetuosidade pelo gasganete…impelem os músculos do diafragma…movendo os do rosto…E não é mais do que a essa ação do rosto, com essa voz estrepitosa, que chamamos riso” (Idem, “Do Riso”). E dizer que Tolstói julga a beleza de um rosto pelo sorriso: “belo é o rosto ao qual um sorriso acrescenta beleza; qualquer rosto!”
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E, NO ENTANTO, COMO DESCARTES É IMPORTANTE!
Quem pode duvidar da importância da obra (e da pessoa, ver textos anteriores) de Descartes? Para que se tenha a dimensão dessa importância, basta dizer que todos os pensadores que se seguiram estiveram enredados em seus conceitos. Alguns os superaram, restabelecendo a unidade entre as diversas expressões do universo e da natureza—incluindo a relação corpo/mente—como Spinoza (1632-77) e Leibniz (1646-1716). Já outros, como Kant e seus seguidores no IDEALISMO ALEMÃO, apenas deram novas formas àquela separação. E se há algo que aproxima Descartes e Kant é o desprezo pelo corpo humano; sua expressão dos sentimentos e pela natureza em geral. Já para Spinoza e Leibniz, haveria algo de sagrado em cada criatura e em todas as expressões da natureza, bem para além (ou aquém) dos códigos religiosos muito humanos. Tolice é associar a metafísica necessariamente à ideia de um Deus ou de deuses, como os marxistas**. Respeitando a etimologia: acreditar haver sempre algo para além do alcance da nossa física, implica aceitar a metafísica. Foi o que Leibniz demonstrou também aos newtonianos: se nem a matéria é morta, ainda menos a natureza (Discurso da Metafísica).
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DESCARTES DEFENDENDO GERAÇÃO ESPONTÂNEA….
Há que assinalar, Descartes respondia a contestações. Ou seja, já não era uma crença generalizada: “…as moscas e inúmeros outros animais e plantas são produzidos pelo sol, pela chuva e pela terra, nos quais não há nenhuma vida como há nesses animais…de onde resulta que o efeito não existia na causa“ (Descartes, “Objeções e Respostas”).

Segundo essas palavras, Deus agiria como uma criança cheia de caprichos; que brinca com seus poderes fazendo a natureza dar cabriolas aleatórias. É quase inacreditável. Mas não foi por acaso. Aqui, também, os efeitos estavam nas causas***. O desprezo e o amesquinhamento da natureza estavam implícitos no geometrismo cartesiano e apontavam para o enterro de sua investigação científica. E dizer que F. Bacon (1561-1626) já apresentara o conjunto de ideias e procedimentos que dariam início à ciência moderna: 1- observar cuidadosamente e coletar dados; 2- organiza-los refletindo sobre eles; 3- formular hipóteses; 4- realizar experimentos que as reforcem ou afastem. Leibniz o apreciava e o cita constantemente, inclusive em críticas a I. Newton!
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…JÁ LEIBNIZ, ANTECIPOU A EVOLUÇÃO, O DNA, E AS MUTAÇÕES!
EVOLUÇÃO: (supondo que cães muito diferentes teriam um ancestral comum) “…são de uma mesma espécie longínqua…que poderíamos encontrar se pudéssemos retroceder bem longe…depois de grandes mudanças, alguns se tornaram grandes e outros pequenos”.
DNA e a MUTAÇÃO: “…Pode ser que tenham em comum uma natureza interna, constante, específica...só diversificada por acidentes…“. E continua: “…falando da essência interior…comparando o cão e o elefante não existe meio de lhes atribuir, interior ou exteriormente, o pertencimento à mesma espécie…”.
APLICANDO AO SER HUMANO:“…não temos motivo algum para pensar que existe, entre os homens e segundo a verdade da essência interna (DNA?), alguma diferença específica essencial, como a que existe entre o homem e os animais” (“Novos Ensaios” 3-VI).
OBSERVAR QUE: 1- a escravidão estava no auge, “justificada” pela ideia de os negros não serem humanos; 2- Leibniz está tentando demonstrar que crianças física ou mentalmente “aberrantes” (nascidas com deficiências graves, discussão frequente na época) eram também seres humanos; 3- defende ainda que os animais têm alma, sentimentos e até rudimentos de inteligência, contrariamente ao que diziam os cartesianos.
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ATÉ A TRANSIÇÃO ENTRE ESPÉCIES LEIBNIZ ANTECIPOU (e com ironia)“Existem animais que parecem possuir tanto conhecimento e tanta razão quanto alguns animais racionais que se denominam homens…(há) uma proximidade grande entre animais e vegetais…Assim, veremos em toda parte que as espécies estão ligadas entre si diferindo somente por graus quase insensíveis...Que existam criaturas a meio do caminho entre as mais altas e as mais baixas é algo conforme esta harmonia…”.
E ainda antecipou o critério para espécie: capacidade de reprodução: “…nos corpos orgânicos ou nas espécies das plantas e dos animais, definimos a espécie pela geração, de maneira que um semelhante, que provém de uma mesma origem ou semente, pertenceria à mesma espécie”. (“Novos Ensaios”-3-VI).
“Pesquisas exatas com plantas, insetos e animais demonstraram que os corpos orgânicos nunca são produto do caos ou putrefação, mas de sementes em que havia certamente uma pré-formação….não só do corpo, como também uma alma” ( Leibniz, “A Monadologia”).
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DESCARTES: CLAREZA AINDA QUE…SACRIFICANDO A INVESTIGAÇÃO!
“Agora (após haver notado o que cumpre fazer ou evitar para chegar ao conhecimento da verdade), o que tenho a fazer é tentar sair e me desembaraçar de todas as dúvidas em que mergulhei…” (“Meditações”).
Quem não gosta de clareza em uma investigação qualquer? A rigor, é o seu objetivo. Quando, porém, alguém fala em se “desembaraçar das dúvidas” apenas confessa sua incapacidade de com elas conviver. Mas, não seriam as dúvidas e as perguntas bem formuladas o maior instrumento de investigação? A investigação científica, por exemplo, tem lançado luz suficiente para equacionar e resolver a maioria dos problemas concretos e materiais da humanidade (por vezes criando outros maiores, é verdade). Para isso, entretanto, com quanta obscuridade precisou conviver! Alguns podem ver ali apenas uma “escorregada verbal” do filósofo, mas ele é contumaz, como quando se determina a não formular juízo algum senão “…a respeito de coisas que me são clara e distintamente representadas pelo entendimento. (Assim) não pode ocorrer que eu me engane; pois toda concepção clara e distinta é, sem dúvida, algo de real e positivo” (“Meditações”). Daí a inventar clarezas através da mutilação da vida…um passo. Mas é na sua necessidade de atribuir um LOCAL no corpo para a inserção da alma “…reconhecido com evidência…” (a glândula pineal), que o corpo “boneco de engonço” fica mais evidente. Critério: a pineal ser única e estar no centro; por isso, responsável por reunir todas as impressões antes de sua chegada à alma. Ele também se preocupava com alguma união, mas tendo a divisão como ponto de partida.
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ALGUMAS “CLAREZAS” E CERTEZAS DE DESCARTES
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Depois de discutir algumas daquelas que denominou “AS PAIXÕES DA ALMA”, nas quais se incluem “descrições” do riso e outras no mesmo teor como: “Da origem das lágrimas” (art.128); “De como os vapores se transmutam em água” (129); “Como se chora de tristeza” (131): “…a tristeza é aí requerida pois, resfriando todo o sangue, estreita os poros dos olhos…diminuindo a quantidade de vapores…”; “Dos suspiros” (135): “somos estimulados a chorar quando os pulmões estão cheios de sangue e a suspirar quando estão quase vazios; e também quando alguma imaginação de esperança ou alegria abre o orifício da artéria…”. O que mais chama a atenção nessas palavras é a pretensão de abordar os aspectos mais complexos e subjetivos da expressão humana (até hoje não de todo bem caracterizados) quando os estudos sistemáticos na área tinham apenas se iniciado. A própria circulação acabara de ser conhecida (W. Harvey, 1628). Não disse Descartes que o corpo era muito mais difícil de compreender do que a mente? Por fim, arrematou Descartes, achando que, com seu trabalho tranquilizava a humanidade (art. 211 sobre as paixões): “E agora que as conhecemos todas temos muito menos motivos para temer…devemos evitar seu mau uso e excessos, contra os quais os remédios que expliquei poderiam bastar, se cada um tivesse o cuidado de praticá-los”. Há muito mais sandices, apresentadas como orientações e expostas com arrogância, mas deixemos Descartes em paz.
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*Não por acaso, disse S. Hawkins que a filosofia acabou e que a ciência agora responde por tudo no universo. Que pretensão!
**Uma das obras cardinais do jovem K. Marx foi “A IDEOLOGIA ALEMÔ onde demonstra o quanto os pensadores alemães tinham se perdido nas nuvens dos conjuntos de ideias totalmente desligadas da vida. Já do materialismo que se seguiu, falo com M. Bandeira: “Cecília, és libérrima e exata/Como a concha/ Mas a concha é excessiva matéria/E a matéria mata!”. A rigor, nem a matéria é morta. Um tanto morto é o próprio materialismo.
***Afirmações do gênero levaram Leibniz a formular o princípio da causa eficiente: nada acontece na natureza sem que tenha sido determinado por fatores da própria natureza. Assim, derrubava recursos a milagres, um costume de Newton até para explicar a gravidade.
****Já as deformações da própria humanidade…! Essas estamos longe de resolver.