APRESENTANDO LEIBNIZ A NIETZSCHE E A SEU BIÓGRAFO-II

(De como Kant, cartesianos e newtonianos conseguiram esconder LEIBNIZ da posteridade)

……………………….

Na quase definitiva biografia de Nietzsche aqui apresentada—discutindo o salto ocorrido em sua obra a partir do “Humano…Demasiadamente Humano”—são apresentados como suas descobertas (pag 174-5) DOIS PRINCÍPIOS estabelecidos por Leibniz havia 200 anos. Como verão, não são apenas “curiosidades”, mas princípios fundamentais aplicados por Leibniz para demonstrar a estreiteza do Geometrismo de R. Descartes e das concepções de I. Newton. São temas que marcaram toda a evolução da filosofia: nada menos do que o resgate da subjetividade na natureza, na vida e na mente humana. E como os próprios termos utilizados por Nietzsche são parecidos com os de Leibniz! Vejamos:

1- Biografia (citando Nietzsche): “…O mesmo se aplica à matemática…não existe uma linha perfeitamente reta na natureza nem círculos puros (melhor seria dizer ‘perfeitos’)”. 

GW LEIBNIZ“O conhecimento das verdades matemáticas é real, embora elas repousem apenas sobre nossas ideias e não se encontrem em parte alguma círculos exatos e perfeitos” (“Novos Ensaios”– 4, IV)

2- Biografia “…as leis dos números foram inventadas sobre a base prevalente de que existem várias coisas idênticas, mas, na verdade, nada é idêntico…inventamos entidades e unidades idênticas que não existem”. 

GW LEIBNIZ:

a- “…dois indivíduos físicos jamais serão iguais…o mesmo indivíduo jamais será idêntico a si mesmo, depois de um instante…” (“Novos Ensaios”).

b- “Não é verdade que duas substâncias possam se assemelhar completamente, diferindo apenas ‘solo numero'”. (“Discurso da Metafísica”).

c- “…Nas coisas sensíveis não se encontram nunca dois indiscerníveis…duas folhas ou gotas d’água” (“Correspondência com Clarke”).

d- “…não há, na natureza, dois seres reais indiscerníveis...duas porções de matéria perfeitamente iguais…” (idem).

……………………….

Há, entretanto, um salto no saber que é só de Nietzsche: a reafirmação da vida como um valor universal, independente de qualquer finalidade fora dela mesma, incluindo Deus e outros. Já todo o raciocínio de Leibniz parte da ideia de um Deus: “…encontramos a razão última da realidade, tanto das essências quanto das existências, em um Ser único…superior e anterior em relação ao mundo” (“Da Origem Última das Coisas”). A verdade, porém, é que essa concepção de Deus antecipava seu banimento da vida, como bem observou Clarke (discípulo de Newton, em correspondência com Leibniz): “Aqueles segundo os quais o universo não precisa de que Deus o dirija e governe continuamente adiantam uma doutrina que tende a bani-lo do mundo”. Referia-se Clarke à Harmonia Universal que dispensa a atuação permanente de um Deus, seja através de milagres (aos quais Newton recorria com frequência) e outras ações. E o inglês ainda comparou Deus a um rei (certamente inglês) que precisaria exercer seu poder (por vezes arbitrário e ao arrepio de suas próprias leis) a todo o tempo.

……………………….

UMA IGNORÂNCIA DIFÍCIL DE EXPLICAR E ACEITAR

Voltaire, o maior cínico da história: “Quando a população se envolve no pensamento, tudo está perdido”.

Considerando que tanto Nietzsche quanto o seu biógrafo são honestos, podemos tirar 2 conclusões: 1-havia (e há) um desconhecimento* de ambos em relação à obra de Leibniz (o que é difícil de aceitar); 2-o esforço concentrado para esconder sua obra—envolvendo cartesianos, newtonianos, Kant, Voltaire e outros—foi muito efetivo (ver textos aqui publicados). É verdade que o próprio Leibniz complicou um pouco sua própria compreensão. As pessoas se perdem em torno das “mônadas” e da “Harmonia Universal”, deixando de lado seus raciocínios profundamente científicos nos “Novos Ensaios”. Mas há uma terrível ironia na situação: Nietzsche dedicou seu “Humano…Demasiadamente…” a Voltaire, responsável pelo mais cínico de todos os ataques desferidos contra LEIBNIZ (“Cândido e o Otimismo”). Nietzsche e Voltaire…impossível imaginar dois seres mais diferentes em suas disposições fundamentais. Nietzsche talvez não estivesse suportando o peso da sua própria profundidade. Teria sonhado em ser o seu oposto? Mas havia outra identidade fundamental entre Nietzsche e Leibniz: o princípio da HARMONIA UNIVERSAL, implicando preservação da energia do mundo e suas trocas equilibradas e permanentes. Deus não seria um mau relojoeiro, que precisasse fazer ajustes periódicos no “relógio-universo” (como afirmavam os ingleses). Foi o que também concluiu Nietzsche quando do ETERNO RETORNO: “O mundo das forças não sofre diminuição, caso contrário, no tempo infinito, teria ficado mais fraco e perecido. O mundo das forças não sofre cessação, caso contrário esse ponto teria sido atingido e o relógio da existência teria parado…” (Caderno de notas, citado na Biografia). Até a alegoria do relógio estava lá. 

……………………….

DEIXANDO TOLAS MODÉSTIAS DE LADO**

É surpreendente que tenha sido necessário um brasileiro para promover o encontro de dois dos maiores pensadores alemães; dos que mais aprecio (juntamente com Montaigne)…E em função de princípios fundamentais da filosofia! Efetivamente, a citação do nome de LEIBNIZ é rara na obra de Nietzsche. Se é que existe! A investigar. Àqueles que se surpreenderem com o que considerarem “pretensão”, espero que, na sua crítica, permaneçam no terreno das ideias (contestação ou reforço). Qualquer fala que estimule ou reforce uma submissão acrítica a “ícones” (do passado ou atuais) será entendida como reflexo da auto avaliação do próprio “crítico”: considera-se incapaz de aplicar seu julgamento PESSOAL sobre temas tão importantes. Sempre acredito na existência de seres capazes de pensar (falar e escrever) criticamente e para além dos totens paralisantes. Afinal, tudo aqui se refere a problemas humanos…demasiadamente humanos. Aquilo que, um dia, foi estabelecido (não definitivamente, é claro) por seres humanos (filósofos), pode ser abalado ou reforçado pelos que virão: a partir de novas descobertas (ou formulações). Não é demais dizer que a palavra FILOSÓFO, que hoje soa tão pomposa, deve sua origem à humildade. Teriam dito a Pitágoras ser ele um sábio, ao que respondeu: “Não! Sou apenas um amante do saber”; ou seja, um FILÓSOFO. De minha parte, digo que sempre tenho a esperança de estar lidando com outros amantes do conhecimento…e do saber.

……………………….

O MAIS DEMORADO RECONHECIMENTO DA HISTÓRIA…AINDA NÃO OCORREU!

Stendhal, criador do romance moderno e consciente de que sua obra não fazia concessões aos ditames da época, afirmou escrever para poucas centenas de leitores. O reconhecimento talvez viesse décadas depois. Nietzsche o cita no “Humano…”, em função do seu próprio não reconhecimento até então. Com Leibniz ocorreu algo bem mais dramático: depois de séculos, ainda não lhe deram o crédito por algumas formulações fundamentais. Efetivamente, confrontar, a um só tempo, todas as principais tendências do pensamento e da investigação científica de sua época, apontando erros sérios na física cartesiana; derrubar as crenças de Newton na existência concreta e palpável de TEMPO/ESPAÇO e também no átomo “bolinha dura” indivisível, não era pouca coisa. Desmistificar a noção de vácuo*** (Newton) aplicando o princípio da necessidade de algum meio para uma ação à distância (gravidade, no caso) e antecipar a noção atual de partículas atômicas carregadas de energia cambiável (suas mônadas) sempre em ação e interação; tudo isso fez mobilizar todas as forças do maior poder da época contra Leibniz. Mas foi Kant quem conseguiu lançar um manto de obscuridade sobre seu conterrâneo. E quanta incompreensão demonstrou o contemporâneo G. Deleuse sobre Leibniz! Girou em torno das suas obras da metafísica (“Teodiceia” e outros), mas ignorou os trabalhos da mais profunda investigação científica, como os “Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano” (Leibniz)! Por isso, louvo a sorte de ter iniciado meu contato com o filósofo pelo seu Prefácio: 15 páginas nas quais a aplicação dos métodos de investigação científica está sintetizada.  

……………………….

“A ORIGEM ÚLTIMA DAS COISAS” (Leibniz) X “O FIM DE TODAS AS COISAS” (Kant)

“As razões para o mundo encontram-se ocultas em algo extramundano…devemos passar da necessidade física ou hipotética…para alguma coisa que seja de necessidade absoluta ou metafísica, algo para o qual a razão não pode ser encontrada” (Leibniz: “A Origem Última das Coisas”).

……………………….

O fantasma de Leibniz assombrou Kant por toda sua vida. É o que se depreende do seu silêncio sobre a obra do antecessor, mas também pela inspiração**** buscada para o título de um dos seus últimos opúsculos. Há, contudo, uma diferença fundamental: enquanto Leibniz tem a humildade de reconhecer, na metafísica, algo para além do alcance da razão humana, Kant tentou nela penetrar. A consequência? Só conseguiu se desligar do mundo (inspirando o IDEALISMO ALEMÃO) e desmoralizar a própria noção de metafísica. Tentar romper o contato da filosofia com a vida passou a ser critério de “elevação” entre esses “idealistas”. Daí ao sonho de uma “Razão Pura, livre de animalidades”, foi um passo. Mas quanta decepção confessada nesse “Fim de Todas as Coisas” (“Das Ende Aller Dinge”)! Incluiria “A COISA EM SI” (“Das Ding an sich“)? A derrocada do seu ideal vem adiante: “Na aproximação do SUMO BEM não se pode encontrar satisfação…o estado em que agora nos encontramos continua sendo sempre um mal em comparação com o melhor e o avanço para a finalidade é uma série infinita de males”. (Kant). Eu diria com Zaratustra: “Toda virtude que se perde nas nuvens volta-se contra os seres humanos”. Mas Kant vai além e faz uma confissão: “enredamo-nos inevitavelmente quando queremos dar um único passo do mundo sensível para o inteligível…”. E ele chega ao FIM: “Se acontecesse ao cristianismo não ser mais digno de amor, então o pensamento dominante dos homens tomaria a forma de rejeição e de oposição contra ele…O Cristianismo não teria sido ajudado pelo destino e, poderia verificar-se, sob o aspecto moral, o fim (perverso) de todas as coisas”. Que me desculpem os kantianos, mas as palavras “não teria sido ajudado pelo destino” diminuem o Cristianismo maculando os princípios da obra de Kant!

……………………….

* Quem sabe uma criptomnesia, no caso de Nietzsche? Registro antigo que retorna, sem que a pessoa se dê conta. É frequente na música e Leibniz também o discutiu. 

**Essa indiscutível ignorância (a outra possibilidade seria uma desonestidade que nunca existiu em Nietzsche) quanto à obra de Leibniz me convenceu de que tenho um papel a desempenhar na filosofia. Não há por que a ele me furtar.

***O deslocamento das partículas sob forma de ondas, em vez de uma linha reta (inclusive fora da atmosfera), sugere estarem vencendo uma resistência: algum fluido ou matéria desconhecidos. O mesmo se dá quando movimentamos rapidamente a mão sob forma de remo no interior da água: sempre oscila para os lados…sob a forma de onda.
****Outro caso típico foi a inspiração para o “ALÉM DO PRINCÍPIO DO PRAZER” (Freud) buscada no “ALÉM DO BEM E DO MAL” (Nietzsche), de quem Freud também não fala. 

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *