METAFÍSICA: “OPERAÇÃO TENTANDO SALVAR DEUS!”-I
(Mas também a subjetividade, depois do abalo profundo causado por Descartes)
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“…a existência de Deus deve se apresentar em meu espírito ao menos tão certa como considerei até agora todas as verdades das Matemáticas que se referem apenas a números e às figuras” (R. Descartes, “Meditações”).
O abalo moral causado pela obra de Descartes não é suficientemente frisado na atualidade. O “Eu penso, logo Eu existo” tirava Deus do centro da equação. Não deixava de ser um avanço nos esforços do pensamento humano em busca de autonomia. Afinal, a ideia de Deus costuma implicar esvaziamento dos seres humanos: “…Existe um lago que um dia se recusou a se escoar, levantando um dique no ponto por onde vazava…talvez o homem se elevará sempre mais a partir do momento em que não mais se escoar num Deus” (Nietzsche, “GAIA CIÊNCIA”, Aforisma 285). Na verdade, porém, não era “apenas” Deus que estava em questão na obra cartesiana, mas a subjetividade na natureza como um todo. Nunca o risco da mutilação do olhar para a vida tinha estado tão presente! A “régua da razão fria” do francês como que restringia a subjetividade somente à razão humana. O “resto” (não somente a matéria “morta”, mas também a natureza e até a vida animal) fora reduzido a apenas forma e extensão. Há, na própria citação inicial, uma confissão: um Deus reduzido ao status da GEOMETRIA. Como todos sabemos, as figuras geométricas perfeitas, a matemática e os números simplesmente não existem na natureza. Há tribos indígenas que não têm sequer a noção de número, certamente por não terem precisado deles até hoje. São criações do pensamento humano; só existem na cabeça dos geômetras, como bem o demonstrou Leibniz. Afinal, tudo está em movimento e se modificando permanentemente.
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CLAREZA A QUALQUER CUSTO…AINDA QUE DA PRÓPRIA VIDA

“Que a vida não é só isso o que se vê/É um pouco mais…/Que os olhos não conseguem perceber;/As mãos não ousam tocar/E os pés recusam pisar…” (“Sei lá, Mangueira” Paulo César Faria e Hermínio Bello de Carvalho).
De alguma forma, Descartes tentou “pisotear”, eliminar mesmo esse “para além” de que falam os poetas. Mas foi mais longe ainda na tentativa de provar o “deus dos geômetras”. Buscando algo “mais perfeito” do que ele mesmo, afirmou: “…o céu, a terra (em minúscula), a luz, o calor…não era difícil saber de onde vinham…”. Por isso, afirma não ter: “…encontrado neles nada que me pareça torná-los superiores a mim…”.Em consequência, e aplicando tortuoso raciocínio, restava apenas imaginar “…uma natureza que fosse verdadeiramente mais perfeita do que a minha; que tivesse em si todas as perfeições de que EU poderia ter alguma ideia, isto é…que fosse Deus” (“Discurso do Método”). Toda essa empáfia devia ser necessária para sua própria afirmação e da razão humana, mas o quanto limita o conceito de Deus às suas (de Descartes) dimensões, é indiscutível. Deus que aceitasse ficar por ali, restrito ao “cercadinho” perfeitamente quadrado da sua geometria! Descartes era a medida de todas as coisas, inclusive de Deus.
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E OS PSICANALISTAS FRANCESES…JÁ SE LIBERTARAM DE DESCARTES?
Afinal, a mentalidade francesa é toda ela muito cartesiana! Não sei se a crítica à obra cartesiana foi levada às últimas consequências entre os psicanalistas franceses. Não há como tergiversar: suas ideias, se levadas ao extremo, resultam na anulação da própria investigação psicológica; reduzida a meras descrições e “treinamentos racionais”. Ele chegou a dizer (ver abaixo) que o entendimento da mente é mais fácil do que o do corpo! Como era pretensioso esse francês! Pensando bem, há ainda muita gente aprisionada ao seu modelo. Quanta diferença em relação à abordagem de W. Leibniz, criador do conceito de APERCEPÇÃO diretamente associada à auto observação e compreensão dos processos em curso em nós mesmos! Somente através dela fazemos como que uma auto sondagem. Ou, como disse um outro alemão, quase 2 séculos depois: “A circunspecção é a virtude de todas as virtudes. Somente através dela tomamos posse do que foi vivenciado” (Nietzsche “O Caminhante e sua Sombra”). Acontecia algo parecido na própria digestão: só se torna propriamente nosso o ingerido depois de sua absorção; respeitando o funcionamento do próprio organismo. Estava lançado, na filosofia, o esforço de fazer valer o dito de Píndadro/Nietzsche: “Torna-te o que és!”; há que se esforçar para a conquista de nós mesmos.
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UMA REVOLUÇÃO NA FÍSICA…E NO PENSAMENTO
Na base de toda essa revolução estava o salto impressionante dos conhecimentos na FÍSICA, principalmente a partir de Galileu. Seus experimentos e a aplicação das leis do movimento geraram a crença de que tudo seria previsível e estaria sob controle da mente humana; no mundo palpável, pelo menos. Descartes levou essa pretensão ao cúmulo de reduzir TODO o mundo material—a natureza como um todo, inclusive a vida animal—à extensão e forma: sua “res extensa”, em oposição à assim chamada “res cogitans”, a Razão humana:
“…compreendi que (a alma) era uma substância cuja essência ou natureza reside apenas no pensar…não precisando de nenhum lugar ou coisa material. De sorte que esse eu, isto é, a alma, pela qual sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo…sendo mais fácil de conhecer do que ele…”.
Se há uma característica que ninguém pode negar a Descartes é sua determinação a levar ao extremo as bases do seu raciocínio, por mais absurdas que pudessem ser as consequências. Mas seu reducionismo, especialmente para o campo da investigação psicológica, era altamente perigoso, como o provam as intervenções “muito racionais” e cruéis nos asilos franceses para doentes mentais. Dizer que o conhecimento da ALMA/RAZÃO era mais fácil do que o do corpo implicava mutilar o entendimento da mente humana e até da própria Razão. Felizmente, logo depois, a humanidade gerou um B. Spinoza para quem “A Razão é luz, mas não é fogo”: ilumina (quando não tem a pretensão de tudo controlar), mas não modifica nada no mundo à volta. Mas esse culto à razão teve consequências muito piores: levou a educação a todo tipo de tortura “muito racional”. Não por acaso, Nietzsche chamou as escolas da época “menageries”; local de adestramento de animais.
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TANTA ONDA CARTESIANA…E O CÁLCULO ESTAVA ERRADO!

Cabe a pergunta: que Deus tão chinfrim seria esse, incapaz de produzir algo ÚNICO, como era de se esperar, envolvendo a natureza, a vida animal e a razão humana?! Como o criador de todas as coisas no UNIverso, não conseguira criar algo também ÚNICO e em evolução natural,. Muita gente não se deu conta, mas o “Deus” (de Descartes) perdeu protagonismo; foi como que enquadrado no esquema cartesiano, segundo critérios de…Descartes! “Sagradas” mesmo passaram a ser suas “leis” e a geometria, muito claras e racionais. Mas o mais interessante é que todo o raciocínio de Descartes se fizera sobre um ERRO na aplicação das próprias ‘leis do movimento” ao mundo físico, como Leibniz o demonstrou. Há sempre algo “para além” também em relação à matéria:
“Leibniz prova que a grandeza que mede o movimento e, portanto, a verdadeira medida da força, é a massa vezes o quadrado da velocidade, isto é, mv2 , e não mv, como acreditavam os seguidores de Descartes”.
file:///C:/Users/User/Downloads/Dialnet-APolemicaEntreLeibnizEOsCartesianos-
Tudo isso com cálculos matemáticos indiscutíveis envolvendo: queda de objetos, seu entrechoque e a transmissão de energia cinética. As figuras e cálculos de Leibniz serão apresentados em próximo texto.
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“DISCURSO DA METAFÍSICA” X “DISCURSO DO MÉTODO”
E foi com esse livro que Leibniz trouxe de volta o INAPREENSÍVEL pela razão humana em todas as manifestações da NATUREZA e do universo; um eterno “para além”. Com isso estabeleceu também:
1- a continuidade necessária e interrelação entre todas as coisas (antecipando a ideia da EVOLUÇÃO);
2- a existência de uma alma também nos animais (totalmente negada pelos cartesianos);
3- a certeza de que cada “partícula” (chamada mônada, energia e força) traz consigo a natureza inteira;
4- que o conhecimento humano é um oceano único;
5- em resumo, o resgate da METAFÍSICA…um para além da FÍSICA, por mais bela que ela também seja!
Muitos físicos e pensadores tentam hoje conciliar os dois modelos (Descartes e Leibniz) como sendo não excludentes e com aplicações diferentes em situações particulares. Raciocinam somente a partir da FÍSICA, não se dando conta, até hoje, da grandeza do drama envolvido e suas consequências. Deixam, por exemplo, B. Spinoza de fora da discussão, sem conseguir associar seu “Deus natureza” à luta contra o reducionismo cartesiano. Leibniz foi seu admirador (chamou-o “judeu sutil”) e passou a vida tentando se desvencilhar (sem sucesso na minha opinião) da sua concepção de Deus. Sem negar a herança cartesiana e seu papel na educação da razão (preparando-a para a investigação, em geral), diria que, do ponto de vista dos FUNDAMENTOS da FILOSOFIA, essa tentativa de conciliação é simplesmente desastrosa, revelando uma estreiteza difícil de aceitar. DESCARTES estava simplesmente ERRADO mesmo, até no seu próprio “Cercadinho da FORMA e EXTENSÃO”.
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*Depois de M. de Montaigne ter colocado em primeiro plano (nos seus “ENSAIOS”) os seres humanos e suas relações, os animais e a natureza, ignorando completamente as discussões predominantes entre os escolásticos.