KANT: MUTILANDO AS ARTES NO “TRIBUNAL DA RAZÃO PURA”!-III
(“Purezas”…na vida…sempre associadas à esterilidade)
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NOTA: discutindo os diferentes processos empregados na filosofia natural e na criação artística, Kant afirmou ter Newton “inventado” PRINCÍPIOS. Quanto despropósito! A rigor, invenções são típicas das ARTES (ver “INVENÇÕES” de Bach). Na filosofia natural, PRINCÍPIOS são simplesmente descobertos e reafirmados. Pensar na “invenção de princípios” é um contrassenso. Duvidei da tradução de “Os Pensadores” e fui à versão inglesa: “Por maior que seja a mente necessária to make such discoveries…” . Já no original de KANT: “dergleichen zu erfinden”, (“para inventar algo assim”). A afirmação parece tão despropositada que os tradutores a “corrigem”. Não foi erro, mas algo fundamental para sua teoria segundo a qual nada haveria para além da “Razão Pura”. Kant atacou tanto a LEIBNIZ, pela formulação de princípios*, que nem Newton escapou de um “ato falho”. O inconsciente de Kant tinha razão ao inventar a tal “INVENÇÃO”.**
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“Na arte poética tudo ocorre com honradez e lealdade”. “Crítica do Juízo”
Toda a deeficiência de Kant em seu olhar para a estética está resumida em um subtítulo: “DA BELEZA COMO SÍMBOLO DA MORALIDADE”. Quando a arte se submete a outros valores fora dela mesma, deixa de ser arte. Sabemos bem no que resulta seu engajamento retórico e moralista. Foi F. Schiller (citado por C. Baudelaire) quem subdividiu os campos do conhecimento na procura por: VERDADE (através da CIÊNCIA); MORAL (JUSTIÇA); BELO (ESTÉTICA). A proeminência da última sobre as demais era evidente, uma vez que o seu cultivo eleva os espíritos até para a aceitação das demais. Eu completaria: é nessa procura pela beleza que se criam e sustentam CULTURAS; liame e ligação das pessoas entre si em uma comunidade. Bem piores, porém, são os juízos de Kant sobre a música:
“…puras sensações sem conceitos, não deixando, como a poesia, algo para meditação…é, sem dúvida, mais fruição do que cultura e tem, julgada pela razão, menos valor do que qualquer outra das belas artes”. (idem). Esse pobre não apreciava sentimentos em geral.
E dizer que todas as artes, de alguma forma, procuram pela música: ritmo, harmonia, contraponto, etc. É a primeira das artes (junto com a dança), por isso associada mais diretamente às MUSAS (inspiradoras). Já a tal Razão…pobrezinha…é uma “casquinha de ovo” (Nietzsche)
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RAZÃO PURA…ASSÉPTICA, INODORA, INSÍPIDA E… ESTÉRIL!
Se alguém ainda precisava de exemplos para a esterilidade da “razão pura”, não precisa mais. E dizer que Kant pertence à geração que presenciou a afirmação da música germânica: Teleman, Bach e Haendel (um pouco anteriores); Haydn, Mozart, Beethoven. Estou convencido até de que a filosofia alemã se firmou na “esteira da sua música”. Imagino que pensassem (na França e Inglaterra): “uma cultura que produziu tal elevação na música deve ter produzido ideias igualmente elevadas”. LEIBNIZ foi um anúncio dessa profundidade e se valeu da mais bela metáfora musical para explicar seu próprio otimismo (mesmo reconhecendo o “caos profundo da ordenação humana”):
“…os mestres da composição…mesclam dissonâncias com consonâncias a fim de excitar o ouvinte…ansioso com o que vai acontecer, sente ele maior prazer quando a ordem é restaurada, exatamente como nos alegramos com pequenos perigos…graças à manifestação de nossa potência …O prazer constante produz fastio e idiotas em vez de satisfeitos”. (“Da Origem Primeira das Coisas”- LEIBNIZ).
Há aqui, além disso, uma antecipação para a psicologia nietzschiana: é o sentimento de potência que gera o maior prazer. Freud se aproximou da tese em “Além do Princípio do Prazer”. O “prazer” não era um princípio. Além (e antes) dele estava a POTÊNCIA.
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ERRO INDISCUTÍVEL DE KANT SOBRE A MÚSICA E ARTES EM GERAL
“…o jogo de pensamentos que é suscitado por ela é uma associação mecânica…exige, como em toda fruição, mudanças frequentes e não suporta repetições reiteradas sem causar fastio“ (idem).
Até aqui, tudo o que vai dito pode ser considerado apenas impressão mal fundamentada de um autor sem condições de bem julgar. Agora, não: é apenas erro grave mesmo! Como disse nosso M. Bandeira, em poesia, toda repetição tem intenção musical específica. É a prosa que não suporta a repetições! O termo “Leitmotiv” (tema que se repete ao longo de uma obra musical) ainda não fora criado, mas seu espírito estava lá, à espera de um nome. Para os Trovadores Provençais, por exemplo, a poesia, sem música era como um moinho sem água; sequer existiria. Um exagero, pois a poesia encontraria sua própria música: ritmos, harmonia e contraponto. Quando Debussy escreveu a Mallarmée dizendo ter colocado música no seu poema “Prélude à l’après-midi d’un Faune”, recebeu como resposta: “Eu julgava ter ele o suficiente”. E foi o mesmo Mallarmée quem disse: a poesia é a palavra, não as ideias, no sentido do culto aos sons e aos ritmos: MÚSICA. Poemas muito ruins se fizeram em torno de ideias “elevadas e moralistas”. Troque a posição de uma palavra e um belo verso ruirá; aplique um sinônimo e ficará só a ideia vazia. Em verdade, Kant sequer alcançou a POESIA que tenta elogiar, caso contrário não diria: “…Amplia a mente, pondo a imaginação em liberdade e oferecendo, no interior dos limites de um conceito dado (entre a diversidade de formas possíveis)…aquela que liga sua exposição com plenitude de pensamentos…”. Difícil imaginar algo mais antipoético! A tal “razão pura” de Kant é uma espécie de “moedor de espíritos e sentimentos” e também de “corpos”. Talvez por isso, ignore a dança, essa “irmã siamesa” da música. Devia considerá-la “corporal demais”. Em sua “prisão/razão”, não alcançou que é o espírito o primeiro a dançar, levando o corpo! Kant transformou uma deficiência em “valor” e o moralismo foi seu maior instrumento: “Na arte poética tudo ocorre com honradez e lealdade”. Digamos com clareza: o que está em jogo é a sensualidade (palavra que ele parece nunca ter pronunciado), talvez o maior ponto de união mente/corpo, especialmente quando a razão não atrapalha. Ver M. Bandeira e o poema “UNIDADE“
Minh’alma estava naquele instante/Fora de mim, longe muito longe/Chegaste/E desde logo foi Verão…/O instinto de penetração já despertado/Era como uma seta de fogo/Foi então que min’alma veio vindo/Veio vindo de muito longe/Veio vindo/Para de súbito entrar-me violenta e sacudir-me todo/No momento fugaz da/Unidade.”
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RAZÃO…JUÍZO: ESTAMOS DIANTE DO “INFERNO DE KANT”!
Forçado a concordar com Epicuro, que associou os prazeres (em geral) a sensações corporais, Kant não aceitou que ele incluísse os intelectuais na sua lista prazeres: “Epicuro entendeu mal a si próprio”. Kant foi pouco honesto! Nosso filósofo “muito virtuoso” não aceitou a mistura entre corpo e razão, da qual se sente “dono e guardião”, como um “pega gazeteiros”! É a sua religião! Por isso, deu-se o direito de condenar aquilo experimentou (sem culpa, pelo menos): prazer corporal. Mas, se ele fala em prazeres…! Sim, até na auto tortura pode haver algum. E continuou: “A satisfação, ou não, repousa sobre a razão; é o mesmo que aprovação ou desaprovação”. Vejam: só quem não sabe o que é satisfação introduz julgamento racional nessa equação. Mas, de repente, uma consideração bem interessante: “Todo livre jogo cambiante das sensações contenta, mesmo que sem qualquer intenção, pois propicia o sentimento de saúde…esse contentamento pode se elevar até a afecção…”. Quando falou em “saúde” pensei de imediato em vitalidade e transbordamento, à maneira de Nietzsche e das primaveras em geral: “In wundershönen Monat Mai” (H. Heine: “Num maravilhoso mês de maio”). Qual o quê! Logo veio a palavra que os filósofos, desde Platão, associaram às “doenças da alma” (pois contrárias à Razão): AFECÇÃO. Esse é o “INFERNO DE KANT” e seus seguidores. Só dizendo com Nietzsche: “Não somos batráquios pensantes; aparelhos de gélidas entranhas! Devemos parir nossos pensamentos de forma dolorosa, dando-lhes maternalmente tudo o que temos de sangue, paixão, tormento, consciência, destino e fatalidade.” (“A Gaia Ciência” – Prefácio)
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*O pior dos ataques, pois sem citar seu nome, embora use alguns deles como o PRINCÍPIO da RAZÃO SUFICIENTE, muito utilizado por LEIBNIZ para duas finalidades: provar Deus, mas também para refutar os milagres em geral, aos quais Newton e seu seguidor Clarke frequentemente recorriam para explicar a gravidade e outras crenças que violentavam a física.
**Driblou a “razão pura” e acertou: os princípios inventados por Newton (vácuo, átomo indivisível, concretude do tempo e espaço) foram todos refutados por Leibniz e pela física moderna. Sobraram as “Leis” (inércia, ação-reação e outras) todas cassadas pela “mecânica quântica”. Aliás, chamá-la “mecânica” é outro contrassenso; resquício de submissão a Newton. Lembram de TOTEM e TABU? É mesmo difícil de se livrar deles. Quando demonstrou a relatividade do TEMPO, Einstein foi ao túmulo de Newton como a se desculpar. Em ciência também se faz politicagem. A relação LEIBNIZ e EINSTEIN é semelhante àquela entre COPÉRNICO e GALILEU: um antecipou, formulou e fundamentou; o outro o demonstrou. Anos antes, um inglês (JJ Tomshon) também confirmara as afirmações do alemão, com as partículas atômicas, derrubando os átomos indivisíveis. Os ingleses não falam muito dele.
BIBLIOGRAFIA:
1-“Crítica da Razão Pura”; “Prolegômenos”; “Fundamentação Da Metafísica dos Costumes”; “Critica do Juízo”; “A Religião Dentro dos Limites da Simples Razão”: Abril S. A. Cultural e Industrial, SP, 1974
2- https://monoskop.org/images/7/77/Kant_Immanuel_Critique_of_Judgment_1987.pdf: Tradução para o inglês de W. Pluhar
3- ‘Crítica da Faculdade do Juízo”; tradução Valério Rohden e Antônio Marques; https://www.afoiceeomartelo.com.br/posfsa/Mat%C3%A9rias/Sociologia%20e%20Filosofia%20da%20Arte%20I/Immanuel%20Kant_cr%C3%ADtica%20do%20ju%C3%ADzo.pdf
4- Kritik der Urteilskraft (original): https://archive.org/details/kritikderurteils00kantuoft/page/162/mode/2up