KANT E SUA ”RAZÃO PURA”: SENHA PARA MUITAS MISTIFICAÇÕES-II
(Aceitar a aberração funciona como um “beija mão”!)
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“…Até agora se supôs que nosso conhecimento deveria se regular pelos objetos…tente-se ver uma vez se não progredimos…admitindo que os objetos devam se regular pelo nosso conhecimento“ (“Crítica da Razão Pura”, Prefácio. Tentando criar uma “ciência” para a metafísica)
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NOTA: alguns estranharão a dureza com que trato aqui o “chinês de Könisberg” (Nietzsche). É a contrapartida da admiração de outros tempos. Quando, porém, descobri que suas ideias mais apreciadas tinham sido antecipadas por LEIBNIZ, o sentimento se inverteu. A uma sentença de Kant devo minha tese de doutorado: “…nem mesmo o pior facínora deixa de desejar…ter também esses bons sentimentos”* (quando apresentados a exemplos de solidariedade). Esses valores estariam como que gravados na alma, para usar a linguagem de Leibniz! O esforço concentrado de Kant (junto a cartesianos e newtonianos) para encobrir o nome do seu conterrâneo foi tão bem sucedido que poucos nele falam. A adulação por Kant ao poder inglês, cujo “ícone-Newton” se esforçou por proteger de Leibniz, representou o máximo do mal estar. O “ídolo da tribo” (ideias de Newton, segundo Leibniz) fora abalado profundamente, mas Kant conseguiu delimitar um “cercadinho para a filosofia”, separando-a da investigação científica. Desde então (até Nietzsche), a filosofia deixou de exercer seu papel crítico para com a ciência: perdeu-se nas nuvens e não mais apontou seus limites e limitações ou criticou seus métodos!
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“Posso ver sua vaidade através dos furos do seu manto”
(De Sócrates aos filósofos cínicos)
Quem pode, nos dias que correm, levar a sério a pretensão de uma razão que se afirma “pura”? São tantas as provas em contrário que seria redundante discorrer sobre elas (ver “O Erro de Descartes” de A. Damásio e outros)! Ademais, ela precisaria ter descido dos céus já formada sobre alguns ungidos. E então, teríamos sido atirados de volta à “Criação” e renegado nossa origem animal, depois de desprezar Darwin, é claro. Quanta vaidade e arrogância no aparentemente muito humilde Kant! Afinal, ele está falando dele mesmo e da sua própria razão “muito pura”. Quando, aliás, usa a expressão: “independente da animalidade”, faz pensar nos dois sentidos do termo “pura”: 1- livre de interferências “externas”; 2- não maculada pelo “pecado original”. É mesmo difícil se libertar de “prisão religiosa”. Seu absurdo vai a tal ponto que chegou a pensar em um “órgão da razão pura”, sem aspas no original e sem referência ao cérebro ou à mente! Efetivamente, se a razão era tão divina, liberta do “mundo sensível”, para que precisaria de um cérebro? Uma coisa é certa: Kant imagina uma RAZÃO totalmente independente de outros aspectos “menores” da MENTE. Alguém duvida de que estamos estudando um ponto de vista muito mais religioso do que filosófico, apenas que sob novas vestes? Estranho é que tantas mentes cheias de informações continuem repetindo a “ladainha kantiana” sem criticar a falsa pureza de suas razões! A “raposa de Könisberg” (assim também chamado por Nietzsche) era mesmo um mestre da manipulação.
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A “REVOLUÇÃO COPERNICANA” DE KANT!“
O objetivo dessa Crítica da razão pura reside na tentativa de mudar o procedimento tradicional da Metafísica, promover assim uma completa revolução”.
Se há um consenso entre pensadores é: o ódio disparado contra Copérnico e Galileu se deveu ao abalo provocado no poder religioso por seus achados e formulações. Mas há um fator psicológico (individual e de massas) associado a esse ódio vingativo: a vaidade ferida pela descoberta de que o mundo não girava à nossa volta; que talvez não tivéssemos sido feitos à imagem de Deus, etc. Sim, a vaidade é um dos grandes males dessa nossa espécie. Intuímos o vazio (“vanidad”) de certas crenças que nos “elevam” perante nossos próprios olhos e, em consequência, somos tomados de ódio por aqueles que ousam demonstrá-lo. Pois bem, o universo não mais girava à volta da Terra, mas Kant conseguiu devolver aos homens a sensação de que tudo gira à volta da nossa Razão…quer dizer, da dele e sob inspiração divina. Foi, em verdade, uma “Contra Revolução” para diminuir os efeitos das descobertas de Copérnico. Tanta vaidade! E quantas mentes cultivadas continuam girando por aí, sem avançar um conhecimento sequer derivado do jogo de palavras kantiano! É um desafio, mas que não me venham com as “virtudes kantianas” e seu imperativo categórico, pois não tem qualquer relação com seus “juízos sintéticos a priori”.
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PARA DESMISTIFICAR KANT: HISTÓRIA E LEIBNIZ!
O maior perigo para quem discute as ideias de Kant é espantar leitores; e não somente os mais simplórios. Modestamente, estou certo de ter encontrado um caminho interessante: a perspectiva histórica e seu cotejamento com a obra de Leibniz que demonstrara os erros de Newton (para quem Kant parece procurar uma “saída honrosa”). O inglês defendera: 1- o vácuo; 2- o átomo “bolinha dura” (não divisível); 3- a concretude do tempo e do espaço, a ponto de poderem ser divididos em partes. Para se ver o alcance da obra do alemão, TODAS as suas teses (em contrário ao defendido por Newton) foram confirmadas pela física moderna: 1- não há vácuo; 2- não existem partes indivisíveis da matéria (apenas partículas e energia cambiável); 3- tempo e espaço não são coisas nem têm existência própria. Assim, Leibniz representa a afirmação da FILOSOFIA em seu conflito amigável e respeitoso com a ciência. Afinal, ele chegou a tudo isso aplicando PRINCÍPIOS, deduções, física e cálculo. E esse resgate da filosofia há de ser, de novo, contra os muito práticos ingleses. Quando vemos, então, o golpe baixo de Newton, acusando-o de plágio na demonstração do cálculo diferencial e integral***, damo-nos conta de que eram todos apenas “Humanos … Demasiadamente Humanos”! Há que tratá-los como tal.
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KANT….DERROTADO PELOS SONHOS!
“…mudanças só são possíveis no tempo, consequentemente, o tempo é algo real……a saber a forma real da intuição interna. Possui realidade subjetiva vis a vis a experiência interna…” (“Crítica….”)
Kant só não contava (nem contou, em qualquer momento de sua obra) com os sonhos. Para os sonhos, tempo e espaço simplesmente não existem, assim como para o UNIVERSO. Posso até imaginar sua resposta à questão: “Mas estamos falando de RAZÃO PURA na qual os sonhos não contam”. E então seríamos forçados a concluir dolorosamente: KANT é superficial! O homem que falou da “profundida alemã” não estava à sua altura. Seu mau julgamento da música é uma comprovação da tese (ver próximo texto), pois se há uma profundidade alemã, é na música que ela mais aparece. A rigor, a superficialidade aqui é uma mera constatação, pois a razão é um epifenômeno determinado por correntes bem mais profundas, como tem sido comprovado pelas investigações neuropsicológicas. A não ser que a consideremos “um milagre descido do céu”, mas então, estaríamos falando de esoterismo ou fantasmagoria. Dito de maneira mais candente: a Razão é “uma casquinha de ovo” (Nietzsche, “Gaia Ciência”). Mas podemos dizer com mais poesia:“A Razão é luz, mas não é fogo” (B. Spinoza, outro gênio já reconhecido: “o mais honesto dos filósofos”, segundo Nietzsche). A Razão pode iluminar fatos, fenômenos e disposições, muito nos ajudando com isso, mas ela não consegue modificar nada sem o concurso dos sentimentos. Que os educadores aprendam-no de uma vez e parem com discursos moralistas.
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E O ESPAÇO!? MISTIFICAÇÃO EM SEU AUGE!“

A geometria é uma ciência que determina, sinteticamente e de modo a priori, as propriedades do espaço…”.Trata-se de uma sentença aparentemente absurda. Afinal, o método científico tenta explicar e estabelecer múltiplas correlações entre fatos da natureza e da vida. Por princípio, ele nada determina por antecipação ou quando da investigação: quanto menos interviermos nos objetos de estudo, melhor. Além disso, falar em “propriedades” de alguma coisa implica torná-la coisa e o ESPAÇO, por definição, não é uma coisa. Por fim, como Leibniz bem o demonstrara, a geometria (com suas formas perfeitas) não existe na natureza, apenas na cabeça dos geômetras. A chave para entrar no “mundo encantado de Kant” são as palavras: “…sinteticamente e de modo a priori…”. Ali tudo seria diferente. Era um esforço para salvar Descartes, que tentou limitar a natureza e a vida à geometria (extensão), tornando-se outra “vítima” das demonstrações de Leibniz. Assim, Kant tentou criar uma ciência separada, para a metafísica, aprofundando o abismo entre a “res cogitans e a res extensa” do francês. A metafísica e a subjetividade tinham sofrido um abalo profundo com sua “régua” mutiladora, até que Leibniz a resgatou****. Em seu “DISCURSO DA METAFÍSICA” (em resposta ao “DISCURSO DO MÉTODO”) o alemão demonstrou, a partir da própria física e apresentando CONTAS que, na transmissão de movimento: energia cinética=massa x velocidade ao quadrado (mv2) e não apenas massa x velocidade (mv) como dissera Descartes. Apresentou até imagens do deslocamento de caixinhas, não deixando qualquer dúvida. Havia algo para além da mera extensão; um movimento interno nas partículas, fora do alcance da investigação científica à época.
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KANT TRAÍDO PELO INCONSCIENTE: O “CERCADINHO KANTIANO”
“…Newton o demonstrou em sua obra imortal sobre os princípios da filosofia natural…por mais poderosa que seja a cabeça requerida para INVENTAR (?) tais princípios…teve que dar todos os passos desde o primeiro elemento da geometria, até suas grandes e profundas descobertas…”. (Kant, “Crítica do Juízo”).
NOTA: estranhei o “inventar” e fui verificar no original: “dergleichen zu erfinden” (para inventar algo assim). O tradutor para o inglês deve ter estranhado, pois “corrigiu” omitindo a palavra inventar. O que eles não sabem, é que Kant parece ter trazido para Newton seus maus sentimentos para com Leibniz, conhecido pelos PRINCÍPIOS que conseguiu descobrir. Teria Kant ojeriza à palavra “PRINCÍPIOS”, pois para além da Razão Pura?
Deixando de lado a adulação, falar em “invenção de princípios” parece até deboche. Kant cedeu ao seu inconsciente. Sua “razão pura” não era tão pura assim. Princípios existem (ou não) na natureza. Cabe à razão apenas bem caracterizá-los. Leibniz foi mestre consumado nesse e em outros pontos. Lembram-se de suas VERDADES DE RAZÃO? O inconsciente de Kant tinha razão: Newton tentou mesmo inventar princípios…sem sustentação. E então, a piedade e o PIETISMO de Kant (escola religiosa) levaram-no a tentar salvar as aparências para Newton. Além disso, com o “a priori e sinteticamente” convidava os alemães: “Venham para o meu mundo sem graça! Deixem a ciência para os ingleses”…também tão sem graça! Por fim, eu que valorizava os conceitos de “coisa em si, incognoscível”, hoje vejo que a inspiração era em Leibniz: como tudo está em movimento e mudança permanentes, não existiriam coisas “estanques a pegar”; algo sempre escapa à Razão (como no mito de Tântalo). Vejam que há em LEIBINZ uma CONTINUIDADE que esbarra em limites momentâneos. A demonstração das partículas atômicas por J. J. Thomson (1897) confirmou a tese de Leibniz: “…não admito na matéria porções perfeitamente sólidas…sem nenhuma variação ou movimento em suas partes, como são concebidos os pretensos átomos”. (G W Leibniz, “Correspondência com Clarke”, discípulo de Newton). ÁTOMO indica “aquilo que não pode ser dividido” e era contra esse modelo endurecido e tosco da matéria que se batia Leibniz. Seu conceito de MÔNADA, associado à energia e à ação, é bem mais interessante. Já Kant apontava para o oposto: SEPARAR a metafísica da física; “coisificando-a” e inventando métodos “muito particulares” (incompreensíveis e inúteis) para com ela lidar. Aliás, a simples expressão “coisa em si” (“das Ding an sich”) é a confissão desse esforço de “coisificação” na metafísica. Afinal, não existem coisas estanques (com ou sem aspas) de espécie alguma para além da matéria palpável.
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*”Metafísica dos Costumes”. A sentença é mais extensa e a tese é: “Seriam os valores morais dos criminosos contumazes diferentes em relação aos dos demais?”. A resposta foi não, tese também de Leibniz. Hoje vejo as coisas de maneira um pouco diferente, mantendo a tese principal. Uma coisa é certa: violentar esses valores mina a própria vida tirando-lhe razão de ser. Ouvi de facínoras: “Minha vida não vale mais nada mesmo!”.
**Estaria falando de “organom”, conjunto de obras de um autor? A verificar.
***O consenso é de que chegaram a resultado parecido por caminhos diferentes. Foi o método de Leibniz que se firmou sendo por todos utilizado.
****Leibniz estava condenado a ser atacado por todos os lados. Também os “materialistas dialéticos” tornaram xingamento a palavra metafísica. Restavam-lhe os poetas: “…Vão destruir esta casa/Mas meu quarto vai ficar,/Não como forma imperfeita/Neste mundo de aparências/Vai ficar na eternidade/Com seu livros, com seus quadros/Intacto, suspenso no ar…” (M. Bandeira, “Última canção do Beco”).