“SISTEMAS SOLARES” ..GALÁXIAS.. POR QUE NÃO “UNIVERSOS”?- I
(Na esteira de LEIBNIZ e aplicando PRINCÍPIOS, nem precisamos ser físicos para fundamentar a reflexão)
Márcio Amaral- vice-diretor INSTITUTO de PSIQUIATRIA-UFRJ (IPUB)
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“…a ficção de um universo material finito; que passeia inteiro num espaço infinito (e vazio), não pode ser admitida. É irracional e impraticável …não há espaço real fora do universo material…São imaginações de filósofos com noções incompletas, que fazem do espaço uma realidade absoluta” (LEIBNIZ, “Correspondência com Clarke”, seguidor de NEWTON)
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NOTA: Ninguém formulou e aplicou PRINCÍPIOS como GW LEIBNIZ (1644-1716). São como pontos firmes, essenciais para posteriores associações. E foi através deles que derrubou diversos erros graves cometidos por NEWTON e seus seguidores. Como, porém, a Inglaterra detinha considerável poder sobre o mundo e pensadores ingleses tiveram aduladores de peso (entre eles Kant e Voltaire*) aquele pensador ficou relegado a um certo relento após sua morte. O texto que se segue é fruto de um novo mergulho em suas obras.
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As crianças costumam achar que o mundo acaba no limite de seu olhar. A maioria dos adultos aprende que não, mas continua a pensar e agir daquela forma. Dizemos que o Universo está em expansão (depois de um “BIG-BANG”), mas não nos perguntamos: a partir de onde e para onde! Do VÁCUO e também em sua direção? Mas…haveria espaços vazios? Leibniz já demonstrara que eles simplesmente não existem: nem aqui e nem certamente “por lá” (seja “lá” o que for). São fruto apenas da nossa ignorância e soberba: aquilo que não vemos ou percebemos (ou não temos instrumentos para investigar) dizemos não existir; seria vazio. Aliás, a própria observação da expansão permanente do universo é um forte indício da disputa incessante por espaços. Mas com “quem”? Provavelmente com outros “universos” para além do nosso alcance! E o que teria sido, então, “BIG-BANG”?
HIPÓTESE: Uma espécie de eclosão “libertadora” a partir da ruptura de uma “membrana delimitadora de outro universo” (outra organização de astros e galáxias, do qual o nosso teria feito parte, sempre em disputa por espaço com outros universos). A partir dessa eclosão, o nosso, tornado independente, passou a empurrar os demais para todos os lados. No mínimo, é poético e Heráclito assinaria a hipótese: “O conflito é o pai e a mãe de todas as coisas”.
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“SINGULARIDADE”: TENTANDO SALVAR NEWTON…AMEAÇANDO A CIÊNCIA
O fato de não termos instrumentos de acesso a esses possíveis outros “universos” (apenas a liberdade do pensamento) não impede sua existência, a reflexão o reforça e um princípio quase o garante: não haver vácuo. Sem contar que o próprio “BIG BANG” torna-se muito mais verossímil. Convenhamos, A hipótese é muito mais convincente do que dizer que tudo foi gerado a partir de um ponto no….NADA! Um simples olhar ao que se passa no nosso próprio universo (onde parece haver um “empurra-empurra” permanente), sugere fortemente que o mesmo deve estar ocorrendo em níveis para além da nossa percepção. E aqui, a ladainha newtoniana de que “matéria atrai matéria…”—nesse estranho “namoro cósmico-platônico” que nunca ninguém viu ou experimentou—parece um problema a superar. Vejam a própria atração magnética: é exercida em função de cargas e APESAR da resistência da matéria e seu peso (empecilhos à aproximação). Como, porém, as “leis” de Newton não se confirmam quando aplicadas ao cosmo, especialmente aos assim chamados “buracos negros”, imaginaram uma certa “SINGULARIDADE” que ameaça a própria ciência: as leis que “valem prá cá”, agora dizem não “valer prá lá” (sic). Difícil imaginar atitude menos científica: o que não conseguimos explicar com os parâmetros consagrados é entregue ao ACASO. Por que não rever todos os conceitos abalados? Talvez o abandono da atração e a aplicação da repulsão generalizada (como sugere Leibniz) resolva o problema. Um “buraco negro” seria apenas o resultado do fracasso de uma galáxia (ou estrela) em continuar resistindo à pressão exercida pelos demais. Assim, toda a pressão à sua volta fluiria naturalmente para o espaço que ela vai abandonando. Disso resultaria o que chamam de “gravidade extrema” que medem por lá, derrubando as teses de Newton. Um dia admitirão com LEIBNIZ: no COSMO parece haver, em verdade, repulsão generalizada. E como ele disse em momento mais poético: “O conhecimento é um OCEANO único” (“Novos Ensaios”)….as leis da física também.
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DO CHÃO AO COSMO…E PARA MAIS ALÉM?
Como costuma acontecer com os processo mentais de decifração da natureza, no início eram apenas escuridão e pontos de luz mais ou menos intensos, sendo que um deles (durante o dia) tudo parecia dominar. Apesar disso, e do seu evidente poder, continuavam a acreditar ser ele, de alguma forma, também submetido à Terra. Superar o GEOCENTRISMO (Ptolomeu) foi o primeiro passo; descobrir que havia relações mais próximas entre alguns corpos celestes (planetas em sistemas solares), um salto enorme; associá-lo a sistemas bem maiores, as galáxias, outro; descobrir que havia inúmeras galáxias, uma surpresa. Teriam as surpresas acabado? Mas, quem disse que superamos de todo o geocentrismo? Cada vez mais me convenço de que a GRAVIDADE newtoniana é seu último resquício (atração ao centro da Terra). A submissão ao “ídolo da tribo” (expressão de Bacon, aplicada às ideias de Newton por Leibniz) entre os físicos continua firme. Ficariam tão envergonhados por tanta submissão e por tanto tempo! Não foi Einstein ao túmulo de Newton fazer um “beija mão” quase se desculpando? Parecia dizer: “Vou fazer um esforço enorme para que minha teoria consiga conviver com a de V. Sria, Sir!”. Pobre ciência, que sempre conviveu com contestações e superações! Foi tomada pelo medo! Einstein devia saber que, muito antes dele, LEIBNIZ demonstrara: TEMPO e ESPAÇO não têm existência própria. São apenas uma ordem de posição (espaço) e uma ordem de sucessão (tempo) das coisas e acontecimentos. Sem eles, tempo e espaço não existem.
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OS MUITOS ERROS DE NEWTON! FALTARIA DERRUBAR UM?!
No “Prefácio” do seu “PRINCÍPIOS MATEMÁTICOS..” há um série deles. Vejamos os ERROS:
1) “…tudo o que é exato refere-se à geometria; o que não o é pertence à mecânica…os erros não são da arte, mas do artífice…A geometria…é apenas aquela parte da mecânica universal que demonstra com rigor a arte de medir.”
A primeira sentença seria interessante, caso estivesse separando: de um lado nossas imagens mentais; do outro o mundo sensível. Quando, porém, Newton fala da possível “perfeição do artífice”, repete velho erro, pois considera a possibilidade da perfeição! É outro PRINCÍPIO de Leibniz: não há exatidão possível no mundo sensível. O que dizer ainda da geometria reduzida à mensuração e por instrumentos humanos!? Pobre Newton com sua mente mecânica! E dizer que Leibniz já demonstrara: nada é igual, não há indiscerníveis: sejam duas gotas d’água, duas folhas ou dois ovos! Mais do que isso, não são sequer iguais a elas mesmas em momentos diferentes (ver Heráclito e os rios). Há ali a marca principal da obra de Newton: REDUZIR O MUNDO À MECÂNICA do seu raciocínio mecânico:
“…Oxalá pudéssemos derivar os outros fenômenos da natureza dos princípios mecânicos…” (Newton).
2) “O tempo absoluto verdadeiro e matemático flui sempre igual por si mesmo….sem relação com qualquer coisa externa…”.
3) “O espaço absoluto, por sua natureza, sem relação alguma com algo externo, permanece sempre semelhante e imóvel”
Após Einstein**, tudo isso parece tão extemporâneo e fora do espaço, não é mesmo?! Mas a verdade é que, na época, Leibniz demonstrara aquele erro amesquinhador da natureza. Não podia haver um “pedaço de espaço ou de tempo”. “De quebra”, Leibniz também superou as formulações de DESCARTES, para quem o mundo material era somente EXTENSÃO (res extensa) e movimento dos corpos no espaço. Já para o alemão (com suas MÔNADAS, ver no seguimento), havia algo mais: força, movimento interno na matéria e energia. Como tinha razão! Aliás, o modelo de átomo apresentado por JJ TOMSHON (1896), amplamente aceito, parece inspirado na MÔNADAS: “O átomo pode ser considerado como um fluido contínuo de cargas positivas onde estariam distribuídos os elétrons, que possuem carga negativa”. ÁTOMO significa “aquilo que não sofre divisões”. Era como pensava Demócrito e os empiristas ingleses (como bolinhas duras) no que também se enganavam, como o demonstrou LEIBNIZ. (CONTINUA).
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*Não há como negar o estrago que o satírico Voltaire causou à reputação de Leibniz. Seu personagem em “CANDIDE OU O OTIMISMO”, “Dr Pangloss” (debochando do fato de Leibniz falar, escrever e travar discussões em latim, francês, inglês e alemão; Pan: todas e Gloss: língua) como que grudou no filósofo. Eu mesmo o ignorei por muito tempo, até que, em uma leitura fortuita do Prefácio de “NOVOS ENSAIOS”, fui como que capturado. De Kant, digo que bebeu na fonte; complicou alguns conceitos de Leibniz (ver no seguimento), não fez sua defesa e adulou os ingleses.
**Também o E=mC2 parece ter sido inspirado em Leibniz. Descartes propusera a equação, aplicável à AÇÃO de um corpo sobre os demais na produção de movimento (em um sistema): Quantidade de movimento = massa (desse corpo) X (seu próprio) movimento (mv). Raciocinando a partir dos experimentos de Galileu (queda de corpos e movimento de pêndulos sem resistência do ar), Leibniz demonstrou que a equação e a denominação corretas eram: FORÇA = massa (desse corpo) X (sua) velocidade ao quadrado (mv2). FORÇA, pois o movimento (externo de um corpo) não é seu atributo, mas algo contingente, sem uma UNIDADE (ver o Sistema Internacional de Unidades) e não quantificável. Já a FORÇA que um corpo pode exercer sobre outro depende de seus atributos; algo intrínseco e insondável (à época), bem para além da mera EXTENSÃO. Duzentos anos depois, Einstein avançou na sondagem dessa atividade interna na matéria (bem para além de extensão e movimento externo); substituiu FORÇA por ENERGIA e, sem cometer o mesmo erro de Descartes, tomou a velocidade da luz (uma constante naturalmente implicada) e a elevou ao quadrado. Ver discussão sobre o resgate da METAFÍSICA por Leibniz (no “Discurso da Metafísica” parafraseando o “Discurso do Método” de Descartes) no livro do Professor e filósofo português NUNO FERRO: https://www.uc.pt/fluc/uidief/ebooks/G.W.Leibniz_NunoFerro
