GESTÃO PÚBLICA: DAS RELAÇÕES COM SERVIDORES! 

(“Modelos de Gestão” ou PRINCÍPIOS norteadores?)

NOTA: do livro sobre a gestão da Profa Maria Tavares (IPUB, 2010/18), quando fui seu vice-diretor. Ter participado diretamente das muitas gestões do IPUB (1994/2022) me confere alguma autoridade para teorizar a respeito. Nunca me candidatei à direção por uma simples razão: apesar de ter certeza do apoio de servidores e discentes, sabia que, em função de um certo estilo de conduta, não conseguiria reunir apoios dos professores para um bom exercício. Uma Direção do gênero implica cultivo de boas relações com: ABP, Secretarias de Saúde (Federal, Estadual e Municipal), Reitorias e outras e, como já o disse várias vezes, os rituais exigidos nas relações em “altas rodas” são absolutamente impossíveis para mim. Sabendo que essa minha limitação acabaria por prejudicar a instituição, declinei de pleitear a Direção.

INTRODUÇÃO!

     Se há uma palavra que me incomoda, especialmente quando se refere à gestão pública, é “modelo”. Há nela entranhada, inevitavelmente, a ideia de repetições acríticas, “fôrmas” rígidas, moldes e outros tipos de reducionismo que a dimensão humana detesta. Deixemos os “modelos” e os “moldes” da indústria; imagens de seres humanos um tanto desumanizados e para objetos feitos em série. Quem lida com as necessidades e os dramas humanos—especialmente nas instituições responsáveis por sua abordagem e terapêutica—sabe: nenhum “modelo” pode dar conta das surpresas eternamente renovadas que desafiam nossa imaginação permanentemente. Apesar dos organogramas de funcionamento terem a sua importância—no sentido de melhor estruturar um serviço e tornar mais clara sua relação e hierarquia—a dimensão humana não cabe naquela miríade de “caixotinhos” coloridos.

    Um outro “efeito colateral” dos tais “modelos”, com os quais temos sido “bombardeados”—todos de inspiração privada e privatista—é a indução à conclusão da inferioridade “obrigatória” da gestão pública diante das de natureza privada. É isso o que vou tentar desmistificar. Sim! Aprendemos muito com as gestões privadas, mas há uma outra dimensão da competência, baseada nas relações humanas (origem e finalidade de tudo, aliás), cujo exercício é bem mais natural entre nós, os gestores públicos, e que haverá de fecundar outras práticas, pervertidas pelo lucro a qualquer custo; até da saúde e da vida de seus funcionários.

      Descartados os “modelos”, resta-nos desenvolver alguns PRINCÍPIOS que, se aplicados com firmeza e flexibilidade, haverão de resultar em um desempenho superior. Um forte estímulo para esse meu esforço, em torno da defesa da gestão pública e de teorizar a respeito, é o velho ataque a que estamos submetidos. Afinal, a tal “iniciativa privada” não se contenta em tentar superar tudo que é público sempre tendo o lucro como referência principal. Seu maior esforço começa pela degradação de tudo o que é público, para isso contam com dois instrumentos: a Grande Mídia (porta-voz maior de seus interesses) e a omissão de muitos dentre nós, servidores públicos, que foram como que capturados pelo poder midiático, ou mesmo se deixaram corromper, no sentido de valores morais, mas não somente. A prática é tão grave que desgastou seriamente suas “vítimas” principais: as escolas e as unidades de saúde, só não conseguindo derrubar (em termos de conceito junto à população e até de seus servidores) as Universidades Públicas, algumas Escolas Técnicas e o Colégio Pedro II. O SUS e seu reconhecimento mundial reverteu muito dessa tendência, mas os esforços de afirmação precisam ser permanentes, pois o ataque é diuturno e seus instrumentos mais sutis. Os PRINCÍPIOS abaixo foram formulados e aplicados em uma unidade de saúde, mas são aplicáveis, em princípio, a todas as unidades públicas (dignas do nome) e até às privadas, desde que exista, por lá também, um ambiente mais humano nas relações.

TRÊS PRINCÍPIOS NORTEANDO AQUELAS RELAÇÕES!

1-Deixar claro o esforço de não eliminar ninguém!

        Até por sua destinação social, a maior vocação de uma unidade hospitalar pública é acolher e assistir às pessoas mais frágeis da população. Essa não pode ser apenas uma figura de retórica a ser usada como “adereço descartável”. Quem desenvolveu e entranhou esse valor, sabe que ele precisa valer também nas relações com os funcionários e entre os membros da direção. Sem perder o referencial de que as instituições públicas visam atender ao público (e não principalmente a seus funcionários, confusão de destinação muito frequente), não podemos esquecer de que as pessoas não são feitas em série e que têm seus melhores e piores períodos na vida, inclusive laborativa. Nenhum ambiente, no qual imperem o desprezo pelas fragilidades humanas ou perseguição, há de ajudar a alcançar aquilo que não foi conseguido de modo mais humano!

       Quer isso dizer que devemos ser lenientes para com o descaso e a incompetência de alguns poucos servidores? Absolutamente, não! Para que as coisas avancem, e que o desempenho geral melhore, basta que sejam abordados, em princípio, os casos extremos. Essa abordagem exige, entretanto (das direções e chefias), uma presença permanente junto aos serviços e um bom conhecimento de cada situação específica e dos servidores responsáveis. Identificada a fragilidade ou mesmo um eventual descaso pelo serviço por um Servidor, e somente depois de um esforço continuado para fazer com que melhorem sua dedicação e desempenho, aí sim, pode-se considerar um afastamento. Considerando a nossa destinação social e o interesse em ajudar pessoas a avançar, entretanto, esse afastamento deveria ser sentido sempre como um fracasso, ainda que inevitável e depois dos maiores esforços. 

      Estabelecido esse ambiente—no qual há o interesse em aproveitar aquilo que cada um tem de melhor—a tendência, de quase todos servidores envolvidos, há de ser a de se associar ao esforço por realizar um trabalho que transcenda a vida e os interesses mesquinhos de cada um. Logo, todos repararão no surgimento de um efeito benéfico sobre suas próprias vidas. Uma coisa é absolutamente certa: sempre que é criado um ambiente de punições pouco criteriosas, todos (ou quase) os funcionários como que se fecham entre eles mesmos, passando a boicotar as direções, de maneira mais ou menos sutil. Certamente se perguntam: “Onde há de parar essa arbitrariedade? Logo posso ser eu mesmo o perseguido!”. Nesse momento, podemos garantir: aquela direção fracassou de forma plena e sem retorno.        E o que temos visto, com alguma frequência e levando a fracassos mais ou menos retumbantes? Diretores que “caem como que de paraquedas”; com um “modelo” qualquer na mão e agindo como se tudo tivesse que ser feito segundo “sua própria imagem e semelhança”; com frequência se esquecendo de que ninguém é dono de um órgão público. Muitos desconhecem que tudo ali tem uma história que precisa ser conhecida e respeitada, como ponto de partida. Há que, como cantou D. Ivone Lara: chegar “piquinininho” e “pisar naquele chão devagarinho“! Digo mais: até nas empresas privadas não se pode meramente impor regras desconhecendo as pessoas e a história da instituição. Gosto de fazer blague com a muito tola sentença:
“Manda quem NÃO sabe ouvir, discutir, refletir! Obedece (cegamente) quem ainda não descobriu a força da luta coletiva!”.
        Nos muitos meses em que estive à frente da direção, não dei uma ordem sequer na base do “faça isso”! Quantas tolices e devaneios, pouco responsáveis de diretores, foram evitados somente porque algum servidor mais previdente resolveu deixar de cumprir uma ordem da qual, dias depois, o próprio diretor sequer se lembraria? De minha parte, aliás, quando não recebo alguma contestação por parte dos Servidores, em um processo de implantação de algum projeto, sei que nada vai acontecer. Quando alguém critica alguma coisa, começou a sentir o processo e a proposta como lhe pertencendo também. Somente após ser submetido a discussões críticas, pode um projeto pertencer a todos e se concretizar.

       Diga-se de passagem, sua implantação também não vai se dar, necessariamente, no tempo desejado. Tudo tem uma certa inércia, inclusive as mentes humanas. Nosso desafio é sua superação; sempre lembrando que a inércia também pode ter a sua função e utilidade, especialmente contra certos estados de estresse e açodamento. Por isso, há que respeitá-la, tentando a decifração da sua origem. O convencimento das pessoas pode demorar um pouco mais, e isso pode ser muito salutar no amadurecimento de projetos. Por essa razão, debocho de outra sentença muito tola:

“Só faça HOJE, aquilo for urgente e quando tiver clareza! O resto…você vai fazer muito melhor AMANHÃ!”.

(CONTINUA)

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