O DIA EM QUE SPINOZA FOI TRATADO COMO A GENI DE C. BUARQUE!

(Um paralelo ainda mais candente em “BOLA DE SEBO” de Maupassant)

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B. Spinoza (1632-77)

“Uma multidão se aglomerou diante de sua casa, lançando pedras em Spinoza” (A HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO-VIII, de Will e Ariel Durant)

Há uma passagem na biografia de Baruch (abençoado) Spinoza que expressa bem o quanto ele não poderia mesmo esperar por compreensão e acolhimento em sua própria época, especialmente por sua capacidade de (docemente) abalar todos os poderes constituídos. Todas as religiões sediadas em Amsterdam o excomungaram e perseguiram, inclusive suas sinagogas…além do ESTADO, é claro. Apesar de todos os EDITOS (foram mais de 50 em sua vida), censurando suas publicações e proibindo pessoas de dele se aproximarem, tornou-se (talvez até por isso mesmo) muito conhecido no exterior, principalmente na França. E foi então que: “Em maio de 1673 em meio à invasão dos Países Baixos por um exército francês, chegou a Spinoza um convite para visitar o ‘Grande Condé’, em Utrecht. Spinoza consultou as autoridades holandesas…que ali viram uma oportunidade para negociações por uma trégua”. Autorizado, Spinoza para lá se dirigiu e precisou ficar por algumas semanas. Estava disposto a tudo fazer por uma possível paz. Quando regressou a Haia foi tratado por muitos como traidor: “Uma multidão se aglomerou diante de sua casa, lançando-lhe pedras”, certamente manipulada pelos que desejavam sua morte. “Joga pedra na Geni/Joga bosta na Geni/Ela é feita prá apanhar/Ela é boa de cuspir…”. Se há alguém que se aproximou do ideal cristão foi esse outro judeu!

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“BOLA DE SEBO” (MAUPASSANT), UMA OUTRA “GENI” (1870)

Guy de Maupassant (1850-93)

Aqui, o paralelo é ainda mais evidente, pois se tratava de uma prostituta. Durante a invasão da França pelos alemães de Bismarck, um comboio com civis franceses, entre eles “Bola de Sebo” (assim chamada por ser um tanto “rechonchudinha”) tentava se afastar de zonas de combate. A proximidade da jovem com pequenos comerciantes, típicos pequeno-burgueses e suas mulheres, disparou atitudes hostis, mas ela se manteve muito digna em todo o trajeto. Tendo ouvido os cochichos ofensivos: “…passeou sobre os vizinhos um olhar tão provocador e intrépido que, de imediato, um silêncio se instalou e todos baixaram os olhos”. Logo a fome caiu sobre eles e apenas a jovem levara mantimentos; oferecidos muito generosamente. Todos se refestelaram e interagiram com uma naturalidade surpreendente.

COMANDANTE ALEMÃO…COMO O DO ZEPELIN…!

“Quando vi nesta cidade/Tanto horror e iniquidade/Resolvi tudo explodir/Mas posso evitar o drama/Se aquela formosa dama/Esta noite me servir”

Em certo momento, o comboio é bloqueado em uma aldeia dominada por alemães. Para surpresa geral, seu comandante foi tomado por desejos sexuais por “Bola de Sebo” e estabeleceu como condição, para a liberação do comboio, que ela com ele passasse a noite, o que foi prontamente rejeitado. E então, os mesmos que a atacavam por sua “condição” passaram à adulação e tentativa de convencimento, afinal, era uma prostituta e não teria (sic) por que recusar o “convite”: “…Faz mal, senhora, pois a sua recusa pode acarretar dificuldades consideráveis, não só para a senhora, mas até para todos os seus companheiros. Nunca se deve resistir àqueles que são mais fortes”, disse um dos que afetavam nobreza. O paralelo com as mulheres casadas, que não teriam o direito de recusar sexo ao marido parece-me óbvio. E continua: “Pois se seu ofício é fazer isso com todos os homens, acho que ela não tem o direito de recusar quem quer que seja”, disse uma das mais “moralistas”. 

“Vai com ele, vai, Geni!/Você pode nos salvar/Você vai nos redimir/Você dá pra qualquer um/Bendita Geni!”

Depois de muita resistência e de um intenso conflito moral“Diga a esse canalha, a esse porco alemão, que eu nunca consentirei. Compreende bem?Nunca! Nunca!”—“Bola de Sebo” acaba por ceder. Sim pode haver muita dignidade entre pessoas nas (aparentemente) mais baixas situações.

“Foram tantos os pedidos/Tão sinceros, tão sentidos/Que ela dominou seu asco/Nessa noite lancinante/Entregou-se a tal amante/Como quem dá-se ao carrasco”

EIS QUE BOLA DE SEBO (GENI) RETORNA!

Quando ela retorna, profundamente magoada e ofendida, encontra a todos comendo, bebendo e rindo: “…abriu a boca para dizer algums verdades, numa onda de mágoa que lhe subia aos lábios; mas não conseguiu falar, de tal modo a exasperação a estrangulava. Ninguém a olhou, ninguém com ela se importava”.  E então, somos atingidos por uma das mais belas e expressivas metáforas da literatura: “…duas lágrimas grossas, destacando-se dos olhos, rolaram lentamente por suas faces. Seguiram-se outras, mais rápidas, deslizando como gotas de água que filtram de uma rocha”. Pode haver, sim, qualquer coisa de rocha em algumas pessoas! O comboio segue seu caminho e todos voltam ao seu antigo papel. Uma Sra muito “respeitável” esboçou (referindo-se a Bola de Sebo) “…um riso de triunfo e murmurou: — Ela chora a sua vergonha”. Duas irmãs de caridade que estavam entre eles: “…tinham recomeçado a orar, depois de haverem embrulhado num papel o resto das salsichas”.*. E a nossa Geni?

“Num suspiro aliviado/Ela se virou de lado/E tentou até sorrir/Mas logo raiou o dia/E a cidade em cantoria/Não deixou ela dormir:/Joga pedra na Geni!/Joga bosta na Geni!/Ela é feita prá apanhar/Ela é boa de cuspir…”

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* Guy de Maupassant “dissecou” a hipocrisia francesa da forma mais crua que se pode imaginar, como sugerem as orações e as salsichas. Não por acaso, as “Academias” francesas tentam, até hoje, o ignorar. Quando um jovem me pede sugestão de leitura para “entrar na grande literatura”, respondo: “Leia Maupassant e comece por Bola de Sebo”.

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