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BEBÊS “LOUSAS VAZIAS” OU PLENOS DE TEMPERAMENTO, TALENTOS, INCLINAÇÕES…?

(Empiristas ingleses “Vs” LEIBNIZ: fundamentos para o estudo do INCONSCIENTE)

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“Trata-se de saber se a alma (a mente) é completamente vazia, como lousas (‘tabula rasa’)..nas quais tudo o que está impresso teria provindo exclusivamente dos sentidos (segundo Aristóteles e J. Locke); ou se, contrariamente, conteria originalmente princípios de várias noções e doutrinas que os objetos externos apenas despertam na devida ocasião” (GW Leibniz, “Novos Ensaios”). “

E mesmo as tais tábulas, encontrará alguém duas absolutamente iguais?”.

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PERGUNTA: Que mãe de vários filhos levaria Aristóteles e os empiristas a sério? Todas repararam como suas disposições iniciais eram diferentes, especialmente em relação ao temperamento. E é de estranhar que nenhum pensador tenha discutido a dominância destro x sinistra (!). Talvez achassem comezinho demais. Pode alguém imaginar que a predominância destra se deu ao acaso ou por convenção? Eis um INATISMO indiscutível! Pobres canhotos, associados até ao demônio: “Cruz…Canhoto”! Tão torturados no primeiro dos preconceitos! Não por raça ou classe.

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Costumamos considerar as especulações filosóficas totalmente sem consequência para a vida do dia a dia. Não é o caso. A formulação de Aristóteles, encampada pelos empiristas ingleses, teve consequências desastrosas na história da humanidade, especialmente para a EDUCAÇÃO, pois estimulava a tomada das crianças como objetos (senso estrito) passivos; uma espécie de massa amorfa. Daí à “evolução” para as escolas que semelhavam “menageries” (local de adestramento de animais, Nietzsche), reformatórios e até campos de concentração, distava um passo. Foi o que se passou com as escolas prussianas e seu ensino imposto por Frederico Guilherme-I (1717): “…Toda a ênfase era posta na obediência e desempenho, e o açoite era ‘de rigueur’. Um mestre escola contava que, em 51 anos de ensino, havia dado 124.000 chicotadas, 135.715 palmadas com a mão, 911.527 golpes com pedaço de pau e 1.115.800 bofetões”. (Will e Ariel Durant, “História das Civilizações” Volume IX). Mesmo considerando haver exagero, a aceitação dos “métodos educacionais” prussianos, parece ter sido generalizada. Aliás, derivações deles chegaram até os nossos dias, assombrando muitas mentes. Não por acaso, Hitler mantinha a imagem daquele rei sobre sua cabeça no “bunker” sujo. J. Locke foi um teórico da educação e bem mais humano nas suas intervenções*. Seria de se esperar, porém, que antecipasse as consequências de suas IDEIAS. Afinal, da abordagem de crianças como objetos passivos até o assédio e a tortura medeiam dois passos. E o que é pior, tudo em nome do “É para o seu bem!”: a filosofia a serviço da perversão!

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G. W. Leibniz 1646-1716

SE TIVESSEM DADO OUVIDOS A LEIBNIZ…HORRORES EVITADOS!
Sua obra, porém, só foi publicada 60 anos depois de sua morte (1716). Mas, a rigor, nada os teria evitado. Quem sabe estamos hoje à altura de suas ideias; capazes promover a harmonia entre os seres humanos a partir do esforço de compreensão, valorização da diversidade e do acolhimento de todos!? Aplicando bela metáfora, Leibniz demonstrou: se até para realizar uma escultura, não é qualquer pedra de mármore que se presta a uma imagem específica, quanto mais para “inventar” um ser humano em toda a sua complexidade! Levando a metáfora ao extremo, conseguiu ele fazer uma ponte entre o mármore e nossas pré-disposições. Essas seriam como “…veios na pedra que assinalariam a priori** uma figura de preferência em relação a outras…É dessa forma que as ideias e as verdades estão impressas em nós como: inclinações, disposições, hábitos ou virtualidades naturais…Por que razão seria necessário que tudo em nós fosse adquirido pelas percepções das coisas externas?” (“Novos Ensaios”). Avançando ainda mais na investigação, essas pré-disposições precisariam, por um lado (especialmente da parte de pais e educadores), de identificação e respeito e, por outro, esforços de conquista plena por nós mesmos. Somente assim podemos compreender o belo verso/sentença (de Nietzsche a partir do poeta Plínio): “TORNA-TE O QUE ÉS!”. Ou seja: toma posse de você mesmo; de seus talentos e capacidades, enfrentando as barreiras interpostas. Mas Leibniz foi ainda mais longe ao anunciar o esforço necessário no caminho da PSICOLOGIA que investiga o inconsciente. Haveria muito “…a ser desenterrado de dentro de nós mesmos”(Idem)Mais adiante, volta ele à metáfora da sondagem profunda: “…por que razão não seríamos capazes de fornecer, de dentro de nós mesmos e para nós mesmos, qualquer objeto de pensamento, desde que queiramos nele escavar?”;“…possuímos muitas coisas dentro de nós, sem o sabermos”. (idem, grifos meus).

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FALTAVA O INCONSCIENTE DINÂMICO: DESEJOS REPRIMIDOS, SÍMBOLOS, REPRESENTAÇÕES…

Mas, para isso, teríamos que esperar por mais dois séculos, até Freud, passando por anunciadores: Schopenhauer e Nietzsche. Os FUNDAMENTOS para a investigação psicológica (bem para além da razão), porém, estavam já estabelecidos, especialmente quando LEIBNIZ fala em “desenterrar e escavar” em nós mesmos. Dirão alguns haver exagero na associação, mas estarão errados. Um simples olhar para os pensadores que o antecederam e sucederam confirma a tese: 1- Descartes, para quem tudo o que não fosse RAZÃO cairia na “res extensa” (inclusive sentimentos e toda a natureza à nossa volta e dentro de nós); 2- I. Kant, cuja apologia da “RAZÃO PURA” exclui, por definição, qualquer investigação para além do racional. Leibniz desmistificou essa arrogância com humildade e grandeza: “…a reflexão não é outra coisa senão a atenção dirigida ao que se passa em nós mesmos…pode alguém negar que há muito de inato em nosso espírito, uma vez que somos inatos a nós mesmos? E também que há em nós noções prévias de: “Être, Unité, Substance, Durée, Changement, Action, Perception, Plaisir” e mil outros objetos de nossas ideias intelectuais?” (idem, original em francês)Leibniz não especificou o sentido da expressão: “inatos a nós mesmos”. É provável que estivesse se referindo a Deus. Fico com a interpretação mais poética, associando-a a sentença de Nietzsche: “Você diz que vive a vida…NÃO! É a vida que vive em você!”. Afinal, trazemos conosco tantas gerações, de antes mesmo do surgimento da RAZÃO! Leibniz apresentou até uma curiosa valorização do prazer espiritual: Os mártires e os fanáticos…mostram o que pode o prazer do espírito…” (“Princípios da Natureza e da Graça”).

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E QUAL A ORIGEM DO INATISMO? EQUAÇÃO INCLUINDO O CORPO!

Nenhum dos pensadores da época poderia avançar muito nessa investigação. Afinal, não valorizavam o corpo*** e há de ser nele que essas pré-disposições serão encontradas. Muitas delas, aliás, já o foram no reino animal: 

1- O “Imprinting” (K. Lorenz): os gansos são “programados” para reconhecer como mãe a primeira figura que andar à sua volta entre 12 e 17 Hs depois da eclosão dos ovos. É o melhor exemplo para a metáfora de Leibniz (o mármore e seus veios), pois se juntam ali os dois fenômenos: uma pré-disposição inata na qual é “impressa” uma conduta;

2- As tartarugas: pré-dispostas (inatismo) a retornar (quando da reprodução) à praia onde nasceram, depois da “impressão” de uma localização específica, desde a eclosão dos ovos. 

Mas…E no ser humano?! A dominância hemisférica é indiscutivelmente inata, mas tenho a impressão de que o estudo dos neurônios-espelho vai nos fazer avançar muito. Dezenas de textos consultados, porém, abordam apenas seu papel passivo como reações sem diferenciação individualizada. Continuamos tão empiristas! Todos deixam de lado o que mais valorizei desde quando soube da sua existência: a identificação de nossas disposições e talentos inatos. Explicando melhor: os neurônios-espelho seriam mais ou menos ativados, dependendo do que há de INATO em nós e a partir do interesse: maior reação quando identificamos um potencial em nós para bem realizar algo. Voltando às crianças, façamos uma experiência: apresentemos uma bola leve a uma criança de 4 ou 5 anos; dando-a para manuseio, informando que vamos jogar para ela agarrar e criando uma atmosfera de brincadeira! Se a predominância na reação à bola jogada for de alegria e esforço em agarrar, sua chance de se tornar atleta com bolas é maior do que se predominarem medo e tentativa de proteção: virar o rosto e/ou protegê-lo contra um possível choque. Fechar os olhos não é critério; de início, quase todas o fazem por reflexo.  

………………..FIM……………..

*A verdade, porém, é que Locke frequentemente se aproximou das ideias que Leibniz levou às últimas consequências: “Quem quer que se ocupe da educação das crianças deverá estudar sua natureza e sua capacidade, […] qual é sua inclinação dominante, […] considerar o que a natureza deu às crianças, prevenir os vícios e os defeitos para os quais tal temperamento mais se inclina (J. LOCKE “Pensamientos sobre la educación. Madrid: Akal, 1986”).

**Difícil de aceitar é que I. Kant, tendo feito dos “a priori” (antecipado por Leibniz) um dos fundamentos de sua obra, tenha “evitado” o tema específico aqui tratado. Talvez a “Raposa de Köenisberg” (segundo Nietzsche) não quisesse se indispor com os ingleses que adulava tanto!

***R. Descartes“…nossa alma, essa parte distinta do corpo, cuja natureza é apenas pensar”; “…uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar…não necessita de nenhum lugar ou de coisa material”; (“Discurso do Método”); “…não há sujeito que atue mais imediatamente contra nossa alma do que o corpo ao qual está unida” (“Das Paixões”). De I. Kant, basta sua apologia da “Razão Pura” (liberta das inclinações e animalidades) para seu descarte nessa discussão. Já GW Leibniz, quantos esforços para encontrar uma harmonia entre os dois: “…esses princípios permitiram-me explicar naturalmente a conformidade entre a alma e o corpo…as almas atuam por apetições, fins e meios (causas finais); os corpos segundo as causas eficientes ou dos movimentos. E ambos os reinos são harmônicos”. (“MONADOLOGIA”).

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